A educação da ministra e dos sindicatos

12 11 2008

120 mil professores manifestaram-se sábado em Lisboa. Segundo a ministra, são todos ou sindicalistas ou reféns dos interesses destes. Como não há assim tantos filiados em sindicatos, seria então de admitir que há dezenas de milhar de professores tremendamente ingénuos e manipuláveis – mas descontentes, isso é que não.

Ouvir as declarações da ministra no sábado (já que ouvir ou ver seja o que for sobre a manif propriamente dita foi quase impossível, tal deve ter sido o nível de pressão governamental para menosprezar o que se passou) foi constrangedor, tal o nível de autismo demonstrado. Simplesmente não percebe, ou não quer perceber, que o mal-estar entre os professores, por muita manipulação político-sindical que exista (e existe, como é óbvio), já vai neste momento muito para além disso. Não teríamos a esmagadora maioria da classe profissional na rua se assim não fosse.

Concorde-se ou não, tenham ou não razão, exige-se que sejam ouvidos. Isso é o mínimo. Depois, já chegámos a um ponto em que todos estão de má fé. Sim, os sindicatos – que aliás neste momento já nem representam a totalidade dos professores, pois existem movimentos constituídos especificamente por causa do que se está a passar; isso também não quer dizer nada, senhora ministra? – os sindicatos, dizia, voltaram atrás no que tinham acordado com a ministra.

Mas também esta não cumpriu, nem em Março nem muito menos agora, com o que diz ser a sua postura de diálogo. Estão todos de costas voltadas, todos chegados a um ponto tal que o orgulho não lhes permite dar o primeiro passo de entendimento. E, no entanto, é tão fácil.

O governo quer a toda a força prosseguir com o processo de avaliação dos professores. Estes dizem que são a favor da avaliação, mas não desta avaliação. Afirmam que lhes retira tempo para o que deviam fazer – dar aulas – que é absurda, burocrática, kafkiana, etc.~Meus caros, até concordo com vocês. Até estou do vosso lado. Mas cabe-vos provar o que dizem.

Sejam sérios. Sem se renderem à tal comissão paritária, cheguem simplesmente à 5 de Outubro e coloquem em cima da mesa uma proposta de modelo de avaliação alternativa, ou as vossas propostas de alteração (profundas, calculo) ao modelo ministerial: “está aqui”.

Aí, a bola estará no campo do governo. Caber-lhe-á então provar que também ele é sério – o que sinceramente duvido, mas então serão eles a ficar mal. E ambas as partes poderão então provar que o que dizem é a sério e entender-se-ão, e todos terão o que querem: o governo um modelo de avaliação, os professores um bom modelo de avaliação.

Assim, como estamos, é que não: o governo a fazer finca-pé num modelo de avaliação que até parece saber que é mau mas ao menos está lá, o que é preciso é avaliar à viva força; os professores a parecerem teimar que afinal não querem avaliação alguma. Pelo menos é isto que parece. Mas não é verdade, pois não?





A gigantesca manif de professores de amanhã

7 03 2008

Segundo o Público de ontem, prevê-se a participação de 70 mil professores na manif de amanhã, em Lisboa.

Serão setenta mil, em linguagem de professor de Português.
7 x 104, em linguagem de professor de Matemática.
A maior manifestação de professores de sempre, em linguagem de professor de História.
Um súbito aumento da densidade populacional no centro de Lisboa, em linguagem de professor de Geografia.
Sete zero zero zero zero, em linguagem de professor de Informática.
Setenta mil potenciais novos membros do Clube do Stress, em linguagem de professor de Educação Física.
70 mil divergências dialécticas com a ministra, rejeitando o diálogo socrático, em linguagem de professor de Filosofia.

Todos estes vão estar em Lisboa amanhã. Mesmo eu, que confesso que não concordo com a maior parte dos argumentos dos professores, me sinto sensibilizado.
A ministra não pode dizer que uma tão grande manifestação é unicamente fruto da manipulação sindical, ou da resistência à mudança de interesses instalados. Até porque as manifestações espontâneas que têm despontado em todas as capitais de distrito – mesmo que se saiba quem estará por detrás da primeira SMS enviada, a mobilização não deixa de ser espontânea – refutam essa tese.
Não consigo crer que um nível de descontentamento que consegue mobilizar tantos professores seja apenas fruto da defesa de interesses de classe. Há mais do que isso, embora isso também lá esteja. Há a incapacidade da ministra em dialogar, em envolver as partes afectadas no processo de decisão – isso é o abc de um bom gestor, que um ministro tem sempre de ser – e há mudanças que têm de ser feitas, concordo, mas que estão a ser mal feitas – e mudar só por mudar traz mais desvantagens que benefícios.
Por tudo isto, sinto-me sensibilizado, até impressionado com a gigantesca manif de amanhã.
Tamanha multidão manietará José Sócrates, que querendo defender a ministra perderá apoio público, e que mesmo que quisesse atirá-la à pira não o pode fazer, sob pena de perder toda a credibilidade de líder e de passar a estar para o resto da sua carreira de primeiro-ministro refém de todo e qualquer interesse que consiga moblizar gente.
Sócrates parece-me pois encostado à parede nesta questão, e estu curioso para saber como vai sair daqui. Não será com certeza com o risível comício previsto para o Porto na próxima semana, iniciativa que se alguém tivesse o mínimo sentido do ridículo cancelava imediatamente…