Bonemine no Irão, dia 5

12 10 2008

Quinto dia sem a minha alma gémea e finalmente estou razoavelmente adaptado e com tempo para vir à tipografia da aldeia. A minha mente tem andado dividida entre o fuso horário português e o persa, e a mandar mensagens à Bonemine a recomendar que compre o máximo de bens que valham dinheiro em Portugal: barris de petróleo estão algo desvalorizados por estes dias, mas tapetes persas e pedras preciosas são sempre excelentes opções para trazer e preparar o sistema económico de troca directa cada vez mais próximo.

(eu confesso, a verdadeira razão para a demora deste post foi a dificuldade em escrever algo que juntasse o périplo da minha cara-metade pela Pérsia com o mäelstrom que tomou conta do mundo…)





Bonemine no Irão

9 10 2008

As minhas desculpas pela interrupção tão prolongada. Não, não fui engolido pelo mäelstrom da crise, antes não tenho tido disponibilidade, absorvido que tenho estado pela partida da minha alma gémea, a Bonemine, para o Irão – desde ontem em terras persas – tinha que aproveitar o tempo que ela cá estava, já que não vou ter férias com ela, decerto compreenderão, compadres gauleses e gaulesas que visitam esta aldeia (poucos, tão poucos).

A lenta descida rumo à economia de troca directa segue dentro de momentos – algo praticado nesta gaulesa aldeia com os javalis, pelo que aqui não sentimos a diferença.





Novo fôlego

11 09 2008

Peço desculpa ao punhado de irredutíveis leitores regulares deste blog pela interrupção involuntária nestas últimas semanas. Quem me acompanha desde os tempos do blog anterior já estará talvez vacinado, mas desta vez o caso até é diferente.

Foi este o tempo necessário a de várias formas por a minha vida em ordem. Profissionalmente, a longa e penosa estrada do desemprego chegou ao fim e desembocou numa bela e promissora oportunidade. Pessoalmente, foi o tempo de por vários pensamentos em ordem e arrumar algumas gavetas mentais. Tendo coincidido estes dois tempos de reorganização, e findos ambos, sinto-me com um novo fôlego para, espero, continuar a manter com a regularidade necessárias este blog que me é tão querido e, de certa forma, até necessário.





O pesado legado de Atatürk

2 08 2008

Tanta coisa a acontecer ao mesmo tempo, e numa altura em que prestei pouca atenção ao blog… Foi o comunicado de Cavaco em cima da extradição de Karadžić, em cima da decisão do Tribunal Constitucional turco de não ilegalizar o AKP, partido no poder…

Sobre este último caso, congratulo-me com a decisão. Foi extremamente importante no sentido de manter a Turquia num regime democrático minimamente normal, e de assim continuar a poder justamente ansiar com a Europa.

A linha do partido “democrático-islâmico” no poder (no mesmo sentido em que por exemplo o CDU alemão é democrata-cristão), contrária à proibição do véu que vigora desde Atatürk, pode ser vista de duas formas: como uma renegação do legado do pai fundador, ou como a sua superação. Pessoalmente, creio mais na última hipótese, mas só o futuro próximo me poderá dar ou retirar razão… Para o bem da Turquia, espero ardentemente estar certo.





Mudanças terminadas

17 07 2008

Isto de aprender a trabalhar com um fornecedor de blogs diferente é mais complicado do que parece… pelo menos com o WordPress, que tem muito que se lhe diga.

Bom, a fase de construção da nova aldeia está terminada, faltando apenas alguns acabamentos que o arquitecto responsável, Numerobis, irá efectuando com o tempo. Pedi-lhe que este novo blog, pelo menos em conteúdo, se parecesse o mais possível com a antiga aldeia, nem que fosse por causa dos impactos ecológicos…

Com o tempo, irei também colocando aqui todo o arquivo do Altermundo, para que tudo fique disponível no mesmo local. Entretanto, a antiga aldeia continuará disponível – parece que nem cobrando favores a Júlio César é possível arrasá-la. Por mero interesse museológico, podem visitá-la

aqui.





Altermundo reaberto

11 07 2008

Depois de (mais) um período de crise criativa, preguiça, etc., o chefe da vossa aldeia gaulesa preferida – embora provavelemente a aldea gaulesa menos povoada – está de volta ao activo. Espero não voltar a parar tão cedo…

Novas, actuais e incisivas leituras da actualidade em breve.





Break my arms…

4 04 2008

I have your good clothes in the car
So cut your hair so no one knows
I have your dreams and your teeth marks
And all my fingernails are painted

I’m here to take you now

You were right about the end
It didn’t make a difference
Everything I can remember
I remember wrong

How can anybody know
How they got to be this way
You must have known I’d do this someday
Break my arms around the one I love
And be forgiven by the time my lover comes
Break my arms around my love

Break my arms around the one I love
And be forgiven by the time my lover comes
Break my arms around my love

I don’t have any questions
I don’t think it’s gonna rain
You were right about the end
It didn’t make a difference

I’m here to take you now

Out among the missing sons and daughters of the SoHo riots
Out among the missing sons and daughters of the SoHo riots

I’m here to take you now

How can anybody know
how they got to be this way
You must have known I’d do this someday
Break my arms around the one I love
And be forgiven by the time my lover comes
Break my arms around my love

Break my arms around the one I love
And be forgiven by the time my lover comes
Break my arms around my love

Break my arms around the one I love

(The National, Daughters of the Soho Riots)





O PCP e o Tibete: a minha resposta à resposta de Bernardino Soares

3 04 2008

Caro Bernardino Soares

(espero que não estranhes o tutoiement, é a minha norma blogosférica, bem como penso ser a norma comunista)

Obrigado antes de mais pela resposta, que sinceramente não esperava.

Muito folgo que, pelo menos, o PCP manifeste o seu pesar pelas vítimas e apele ao fim da violência e a uma resolução pacífica da questão.

Não sou no entanto ingénuo ao ponto de pensar que não existe manipulação da informação veiculada. Eu frisei isso na minha carta: sei que ela existe, e que existe dos dois lados (na tua resposta só referes a manipulação “ocidental”); tal como sei – porque isso também passou nos media ocidentais – que os protestos iniciais por parte de tibetanos assumiram também contornos violentos. Não estou como é óbvio de acordo com qualquer tipo de violência, possa ela ser justificada ou não, e julgo que o que escrevi antes deixa claro este meu ponto de vista.

Não compreendo no entanto as aspas relativas à “ocupação chinesa há mais de 50 anos”. É um facto que a China ocupou o Tibete há cerca de 50 anos. Ou o facto de haver militares chineses e orgãos de soberania chineses, contra a manifesta vontade dos Tibetanos, não é ocupação? E se é verdade que durante a maior parte da sua história o Tibete não foi independente, é igualmente um facto que o foi (pelo menos de facto) no período imediatamente anterior à ocupação chinesa.

O que está em causa, de resto, nem sequer é a questão da independência, pelo que nem sequer faz grande sentido levantá-la. Como bem dizes, os próprios Tibetanos não se opõem à soberania chinesa; opõem-se isso sim à sistemática aniquilação da sua cultura. O que está em causa é o princípio da auto-determinação, tal como o Dalai Lama repetidamente insiste (embora raramente seja ouvido neste aspecto), princípio que aliás está inscrito na Carta das Nações Unidas. Este não equivale necessariamente a independência, apenas, como é aqui o caso, do direito de cada povo a decidir de si próprio – e o Tibete não se importa de ser chinês, desde que isso permita a livre expressão da sua cultura e religião (que também não é tolerada pela China).

Quanto às tuas alegações em relação a feudalismos e formas de escravatura, não deixas de ter razão: são sistemas contrários aos Direitos Humanos. A sua abolição, porém, pode ser efectuada de múltiplas formas, e não exlusivamente pela força da bota chinesa. De resto, este é uma linha argumentativa perigosa: sob ela alicerçaram os Estados Unidos a sua invasão do Iraque, por exemplo, à qual (e bem) o PCP se opôs.

Alegro-me pelo facto de te teres dado ao trabalho de visitar o meu blog. Espero que talvez o visites novamente (não é preciso concordar com um blog para o ler), e até quem sabe deixar comentários, que seráo sempre bem vindos, concordantes ou não comigo. Quanto à questão do Kosovo, é outro assunto em que discordo com a linha adoptada pelo PCP (mais uma vez as antigas fidelidades a ditarem as suas regras…). O meu ponto de honra é a auto-determinação dos povos, não necessariamente dos países. A inviolabilidade das suas fronteiras deve ser sempre que possível adoptada como ponto de partida para a resolução de questões de auto-determinação (casos na Europa não faltam), mas quando tal não é possível há que avançar para alternativas. No Kosovo é patente que seria impossível a manutenção das fronteiras sérvias, com interferências externas, é certo, mas a partir do momento em que sucederam não se pode retirá-las de cena.

A minha nota final é para o teu argumento de que “é evidente que o apoio a movimentos separatistas por parte de potências ocidentais, é um reflexo do avanço de pretensões de ingerência directa e indirecta no território da China.”. Elas existem, como é óbvio – não sou ingénuo como te parece decorrer da minha carta – mas também existem por parte da China, por exemplo no Sudão. Chama-se realpolitik. Não gosto dela, seja por parte de quem for – Estados Unidos, China, Rússia, UE – mas existe. Dos dois lados, como tudo nesta questão (em todas as questões).


Cumprimentos,


António Rufino





O PCP e o Tibete: resposta de Bernardino Soares ao meu mail

3 04 2008

O líder parlamentar do PCP, Bernardino Soares, respondeu – e em pessoa, sem recurso a gabinetes ou secretários, o que muito me lisonjeia – ao mail que enviei em relação à posição comunista face à violência no Tibete:

“Caro António Rufino

Com todo o respeito pelas opiniões expressas sobre a posição do PCP em relação ao voto sobre os acontecimentos no Tibete, não posso estar de acordo com elas.

Penso mesmo que são injustas em relação ao que realmente é a posição do PCP. Envio por isso a intervenção proferida por ocasião desse debate.

Desde logo em relação à questão dos Direitos Humanos nela se afirma clara e inequivocamente: “Não está em causa a manifestação de pesar do PCP em relação às vítimas, o seu desejo de que os conflitos tenham uma resolução rápida e pacífica, bem como os seus princípios de defesa da democracia e dos direitos humanos.”.

Mas independentemente disso é impossível, ou pelo menos de uma grande ingenuidade, não compreender todo o alcance do que se está a passar.

Dizer que há deturpação de informações, como no caso das imagens sistematicamente difundidas como sendo no Tibete, de cargas policiais que afinal eram no Nepal, ou no constante esquecimento de que os protestos na origem dos acontecimentos também foram violentos, não significa negar que existem situações para as quais entendemos dever haver uma solução pacífica, como afirma a nossa intervenção.

E não pode significar qualquer dúvida de que o PCP não abdica dos seus princípios de defesa da democracia e liberdade, de que são testemunhos eloquentes a nossa história, o nosso programa e a nossa actividade política diária. São esses que nos responsabilizam. É por esses que respondemos e não por quaisquer outros.

Chamo também a atenção para as deturpações históricas sistematicamente feitas sobre a história do Tibete, pense-se o que se pense sobre a sua situação actual ou sobre a China. É o caso das referências à “ocupação chinesa de há mais de 50 anos”, tese sistematicamente repetida e que não tem adesão à realidade. Para além de não se conhecerem quaisquer questionamentos formais à integração da região do Tibete na China, nem sequer das potências que visivelmente ao longo dos anos têm apoiado e até armado movimentos separatistas, a verdade é que o Tibete é uma das regiões da China, com maior ou menor autonomia, desde há 700 anos. O próprio Dalai-Lama não defende a independência do Tibete. Mesmo no período após a revolução popular chinesa essa integração não foi questionada, até pelo próprio Dalai-Lama, que aliás integrou a primeira Assembleia Nacional Popular da China e teve funções de governação no Tibete nesse período.

Seria interessante aliás analisar as razões para a divisão que entretanto aconteceu por parte da nobreza e de dirigentes religiosos tibetanos, e a sua ligação com as iniciativas de abolição da servidão e da escravatura vigentes até a essa data naquela região, bem como de um acesso mais justo à terra e aos meios de subsistência.

Uma nota final para a questão do respeito pela soberania dos países e dos povos e pelo direito internacional. É que esse princípio está crescentemente ameaçado nos tempos que correm, como bem se verifica na questão do Kosovo (em que verifico que assume no seu blogue como natural o reconhecimento por Portugal da independência deste território), e do Iraque, entre outras. No caso concreto essa é também uma realidade relevante, porque é evidente que o apoio a movimentos separatistas por parte de potências ocidentais, é um reflexo do avanço de pretensões de ingerência directa e indirecta no território da China.

Espero com isto ter contribuído para uma melhor compreensão da nossa posição em relação ao voto apresentado.

Cumprimentos,

Bernardino Soares”





Mail por mim enviado ao PCP em relação à questão do Tibete

31 03 2008
Assunto: Carta de repúdio de um militante à posição do PCP na questão do Tibete

Camaradas,

No final da semana passada, foi votado na Assembleia da República um voto de protesto contra a recente irrupção de violência no Tibete, ao qual o PC foi o único partido a opor-se. Escrevo-vos para vos manifestar a minha veemente discordância e o meu repúdio face à vossa posição.
Independentemente de justificações, espúrias ou não, independentemente de alegados ataques à realização dos Jogos Olímpicos, de teorias da conspiração, de campanhas de desinformação (as quais, camaradas, podem ser alegadas pelos dois campos), o que está em causa é a coragem de assumir a defesa de uma posição mesmo que incómoda, mesmo que contrária a afinidades de outra índole. O que está em causa é não se refugiar em teorias da conspiração para não ter de se assumir algo incómodo: que possíveis afinidades ideológicas ou amizades políticas não podem sobrepor-se, nunca, aos mais básicos e absolutos dos direitos – os Direitos Humanos.
São estes os Direitos que devem valer, e estes, quaisquer que sejam os olhos com que se vejam (desde que se queira ver), foram – e são continuadamente desde a ocupação chinesa há mais de 50 anos – barbaramente violados no Tibete.
Do meu ponto de vista, camaradas, perderam toda a legitimidade moral para protestar e opor-se a tantos casos de ilegais invasões de países terceiros, grosseiras violações do Direito Internacional e violações dos Direitos Humanos por esse mundo fora. A questão do Tibete é-me demasiado clara para poder deixar passar em branco mais esta vossa agressão (não, não é a primeira…) àquilo em que mais profundamente acredito.

Camaradas, perderam com este acto o meu afecto e a minha militância. O meu cartão de militante do PCP, nº 36402, que com orgulho ostentava na minha carteira, foi colocado na gaveta. A minha militância também.
Hei-de continuar a chamar-me, a considerar-me, comunista, pois isso tem a ver com aquilo em que se acredita, e não com a pertença a um grupo ou partido. Hei-de ser para sempre comunista. Não posso, neste momento, continuar a ser e a considerar-me membro do PC.

Cumprimentos,

António Rufino

PS – Esta carta será também colocada no meu blog, altermundo.blogs.sapo.pt, como parte da minha manifestação de repúdio.