O clube Pinochet, dos ditadores sanguinários saídos do poder e mortos sem terem visto a Histõria ajustar contas com eles, tem mais um ilustre membro: Suharto. Digo dele o mesmo que disse de Pinochet: que não descanse em paz.
Disse coisas bem mais eloquentes do que eu conseguiria Helena Matos, no Público de hoje, acerca da relação de Suharto com as potências ocidentais e também acerca do dúbio papel português de que nunca se fala:
“[Foi um ditador conveniente] para vários Estados. Como os EUA, que viam nele um aliado da realpolitik. Para o Vaticano, que não ignorava ser a Indonésia o mais populoso país muçulmano do mundo e que, no meio da crescente radicalização do Islão, se mostrava comparativamente tolerante para com os católicos. Foi-o também para Portugal onde a brutalidade das tropas indonésias nos poupou a maiores explicações sobre o nosso papel naquela tragédia. E para os próprios timorenses cujo calvários às mãos dos indonésios lhes ofuscou as suas próprias responsabilidades nos acontecimentos de 1975, pois quando as tropas indonésias entraram em Timor já a violência e a brutalidade estavam instaladas.
(…)
[Em 1975] Portugal encontrara finalmente o seu ditador conveniente: Suharto. O homem a quem finalmente, numa espécie de frenesi e alívio patrióticos, todos os portugueses podiam odiar e condenar.”

