Faltam 2 dias para a abertura dos Jogos Olímpicos mais vergonhosos desde há muito tempo. Há muitos motivos pelos quais este evento não devia acontecer onde vai acontecer; ou, já que vai o vai ser, pelos quais devia ser ignorado; ou, já que não o será, pelos quais devia ser boicotado. Já que também isto não acontecerá, restam atitudes individuais de quem se sente demasiado indignado para nada fazer. É o meu caso, obviamente.
Ponderei se deveria boicotar os Jogos não vendo qualquer uma das provas – o que me custaria, fã acérrimo de desporto como sou mas que faria resolutamente se concluísse que tal era útil. Em alternativa, poderia boicotar as empresas que patrocinam o evento. No limite, como chegou a ser alvo de reportagem, poderia evitar produtos made in China. Acabei por chegar à conclusão de que nenhuma destas acções teria sequer impacto (ou, no caso da última, não seria sequer exequível), por partirem de um indivíduo, e porque tanto quanto saiba poucos haverá (se houver alguns) a encetar tais formas de protesto. Se houvesse um movimento mais ou menos generalizado neste sentido, consideraria juntar-me a ele, embora pense que o impacto continuaria a ser reduzidíssimo.
Os Jogos Olímpicos representam acima de tudo oportunidades de negócios milionários, nada que milimétricos consumidores individuais possam sequer beliscar. Patrocínios de grandes empresas estão já efectuados e os lucros realizados. Oportunidades de melhorar a carreira dos atletas presentes poderiam ser beliscadas por um boicote desportivo, mas não seria justo para estes, meros peões inocentes num jogo que os ultrapassa. A abertura de novos mercados aos produtos do resto do mundo pode ou não acontecer, mas depende da vontade das empresas e das lideranças políticas – e ambas, face à enorme dimensão da China e ao que tal representa como mercado e como potencial de enriquecimento das nações, foi sempre claro de que lado sempre ficariam.
Resta-me assim, enquanto autor de blog, usar a visibilidade que este possa assumir (embora – suspiro – a minha meia dúzia de leitores diários também não me permita ambicionar muito) para denegrir um dos objectivos fundamentais que a China tenta atingir com estes Jogos: mostrar ao mundo não só que já é um grande (disso já ninguém duvida), mas que merece sê-lo, e que quer ser visto como legítima potência que consegue organizar com sucesso e irrepreensivelmente o maior evento do planeta. Ora há aqui várias premissas em que cidadãos politicamente conscientes, mesmo a nível individual, podem colocar pedras na engrenagem. O meu blog, sozinho, nada conta, mas dada a natureza em rede da blogosfera, se mais houver como eu – tenho a certeza que há - se mais links se espalharem pela blogosfera, muito mais pequenas pedras emperrarão esta engrenagem.
Porque a China não pretende apenas que o seu povo se orgulhe dos Jogos – isso, com mais ou menos manipulação informativa, é um dado adquirido – mas também que o resto do mundo reconheça o mesmo. Este reconhecimento parte da percepção que dos Jogos for dada por parte das fontes informativas: jornais, televisões, rádios, e também blogs. Se por esta última via a percepção para o mundo for a de uns jogos grandiosos mas inadmissível e politicamente manipulados, pelo menos em parte o grande desígnio chinês terá falhado.
Aliás, a catadupa de notícias que se tem sucedido nos últimos tempos com o natural virar dos holofotes mediáticos para Pequim prenuncia isto mesmo: que o mundo não verá estes Jogos como o coming of age da China, mas antes como uma bruta e por isso indesejada manifestação de força por parte de um país ainda até certo ponto pária. A Economist, como escreveu esta semana, concluiu já que a modernização chinesa está a ser efectuada não através dos Jogos mas apesar destes, já que têm representado uma regressão na muito progressiva abertura do regime. Isto é algo do qual o mundo já se está a aperceber e do qual, espero, tirará as suas conclusões.
Do que eu já me apercebi é que perpassa já por todo o lado algo inteiramente diferente do gongorismo desejado e apregoado por Pequim, uma certa sensação negramente familiar e arrepiante… Talvez que, ao contrário do que a China pretende, estes Jogos não fiquem para a História como a definitiva afirmação de um país, como reedição de Tóquio ou Seul. Talvez que sejam lembrados como o triunfo de uma vontade totalitarista, com inexoráveis e sinistros ecos de tempos mais negros… porque, sim, definitivamente Pequim rima com Berlim.
(no Público de hoje)
O triunfo da vontade da China
(Nina L. Khrucheva)
A escolha de Albert Speer Jr. pelos dirigentes chineses não pode deixar de evocar os totalitarismos do século XX
Quando tiver lugar a cerimónia de abertura dos Jogos Olímicos de Pequim, os espectadores vão ser presenteados com um espectáculo meticulosamente coreografado e banhado no mais puro kitsch nacionalista.
É claro que a última coisa que a China deseja para os seus Jogos Olímpicos é vê-los associados a imagens que recordem as tropas de choque hitlerianas marchando a passo de ganso. Não esqueçamos que o nacionalismo oficial chinês proclama que o “progresso pacífico” do país evolui num idílio de “desenvolvimento harmonioso”. Mas a verdade é que, tanto do ponto de vista estético como político, o paralelo não tem nada de rebuscado.
Na realidade, ao escolher Albert Speer Jr. – o filho do arquitecto favorito de Hitler e designer chefe dos Jogos Olímpicos de Berlim de 1936 – para conceber o plano geral dos Jogos de Pequim, é o próprio Governo chinês que torna impossível esquecer a radical politização da estética que foi uma marca dos totalitarismos do século XX. Da mesma maneira que fizeram esses regimes, fascistas ou comunistas, também os líderes chineses tentaram transformar o espaço público e os eventos desportivos numa prova visível das suas competências e do seu direito a governar.
A encomenda que foi feita a Speer Jr. foi a de conceber o plano geral para o acesso ao complexo olímpico de Pequim. O seu conceito central consistiu na construção de uma imponente avenida que liga a Cidade Proibida ao Estádio Nacional, onde vai ter lugar a cerimónia de abertura. O plano do seu pai para “Germânia” – o nome escolhido por Hitler para a Berlim que planeava construir depois da Segunda Guerra Mundial – também se organizava em torno de um eixo central, igualmente poderoso.
Os dirigentes chineses vêem os Jogos Olímpicos como um palco para demonstrar ao mundo a extraordinária vitalidade do país que construíram nas últimas três décadas. E essa demonstração serve um objectivo interno ainda mais importante: legitimar a futura permanência do actual regime aos olhos dos chineses comuns. Dado este imperativo, uma linguagem arquitectónica que se caracteriza pela grandiloquência e pelo gigantismo parece quase inevitável.
É por tudo isto que não é uma surpresa que os Jogos de Pequim se pareçam com os orgulhosos Jogos que mereceram tanta atenção do Führer e seduziram as massas alemãs em 1936. Tal como os Jogos de Pequim, as olimpíadas de Berlim foram concebidas como um baile de debutantes, uma grande estreia. A máquina de propaganda nazi de Josef Goebbels foi utilizada a fundo. As imagens de atletas – utilizadas de uma forma brilhante no aclamado documentário de Leni Riefenstahl, Olímpia – pareciam criar um laço entre os nazis e os antigos gregos e confirmar assim o mito nazi segundo o qual os alemães e a civilização alemã eram os verdadeiros herdeiros da cultura “ariana” da Antiguidade clássica.
Enquanto desenhava os planos para os Jogos de Pequim, Speer Jr., um reputado arquitecto e urbanista, também pensou, tal como o seu pai, criar uma metrópole futurista global. Mas é claro que a linguagem que usou para vender a sua ideia aos chineses foi muito diferente da que o seu pai usou para apresentar os seus planos a Hitler. Em vez de sublinhar a magnificência dos seus projectos, o jovem Speer preferiu insistir no seu carácter ecológico. A ideia era transportar a cidade de Pequim, com a sua história velha de 2000 anos, para a hipermodernidade – enquanto a Berlim que o seu pai tinha planeado em 1936 era “simplesmente megalómana”.
É evidente que os filhos não devem ser julgados pelos pecados dos pais. Mas, neste caso, quando o filho usa elementos essenciais que constituíam os princípios arquitectónicos do seu pai e serve um regime que tenta usar os Jogos para as mesmas razões que animaram Hitler, não estará ele conscientemente a reflectir esses pecados?
Os regimes totalitários – os nazis, os soviéticos em 1980 e agora os chineses – querem ser anfitriões dos Jogos Olímpicos para mostrar ao mundo um sinal da sua superioridade. A China acredita que encontrou um modelo próprio para desenvolver e modernizar o país e os seus dirigentes olham para os Jogos da mesma maneira que os nazis e Leonid Brejnev olharam: como uma maneira de “vender” o seu modelo a uma audiência global.
É evidente que os chineses mostraram ser politicamente insensíveis ao escolher um arquitecto cujo nome tem tais conotações políticas. E é possível que o nome de Speer não tenha pesado da sua escolha. O que os chineses queriam era encenar uns Jogos que pusesse em evidência uma certa imagem de si mesmos e Speer Jr., inspirando-se na arquitectura do poder que o seu pai dominava, pôde apresentar a solução desejada.
A concretização da visão olímpica de Speer Jr. e da dos seus patronos assinala o fim de um bem-vindo interlúdio. Durante os anos que se seguiram ao fim da guerra fria, a política esteve afastada dos Jogos. Uma medalha de ouro representava as qualidades desportivas e a dedicação dos atletas individuais e não os supostos méritos do sistema político que os produzia.
Mas agora regressámos a uma estética de mesmerismo político, que se reflecte na declaração do Governo do país anfitrião, segundo a qual a China deverá ganhar mais medalhas de ouro do que qualquer outro país até aqui.
Quando a tocha olímpica acabar o seu percurso – que foi aliás uma ideia dos nazis, usada pela primeira vez nos jogos de 1936 – ao longo da avenida do poder imaginada por Speer Jr., o mundo poderá de novo testemunhar o triunfo da vontade totalitária.
Nina Khrucheva é professora de Relações Internacionais na New School University, em Nova Iorque, e é senior fellow do World Policy Institute de Nova Iorque. É autora do livro Imagining Nabokov: Russia between Art and Politics. © Project Syndicate, 2008 (www.project-syndicate.org)