Terá a crise batido no fundo?

13 10 2008

Com o forte impulso de confiança do tardio acordo europeu para restabelecer a confiança aos bancos europeus, hoje foi dia de respirar fundo e ganhar fôlego para os marinheiros financeiros – sobretudo para os portugueses, sempre os mais histéricos nas perdas (os ratos são sempre os primeiros a abandonar o barco) como nos ganhos.

Talvez o mäelstrom já tenha deixado de rodar, talvez não. Talvez já se tenha batido no fundo, talvez não. Só os próximos dias dirão. Para já, trata-se mesmo só disso: de ganhar fôlego para o futuro próximo e para o que ele trará, seja isso mais negrume ou o início da escalada do poço.

Penso que ainda não vimos no entanto tudo. O fundo do poço já deve estar próximo, porque toda a gente – falo de “toda a gente” que manda – já percebeu a enorme extensão do que se passa, mesmo ignorando quão enorme tudo acabará eventualmente por ser. Por isso digo: o fundo do poço, financeiramente falando, não poderá estar já muito longe, mais não seja porque já não parece haver muito mais para descer.

Depois, será recolher os cacos e perceber o que se poderá fazer para construir um novo sistema, mais forte e imune a este tipo de crise-dominó. Ainda mais importante, depois será prepararmo-nos para os efeitos sobre a economia real: crescimento zero, novamente o aumento do desemprego, em Portugal novamente o fantasma do défice…

É uma década completamente perdida para Portugal, estes anos 00.

Não se pode hibernar e acordar daqui a uns anos, num país líder em energias renováveis – produção de ventoínhas, centrais de energia a partir de ondas do mar, centrais fotovoltaicas hiper-eficientes de patente portuguesa, crescimento económico a 5% impulsionado pelo cluster dos engenheiros informáticos crescidos a dormir a Magalhães de peluche (mas que não sabem quem foi Fernando Pessoa ou D. João II nem escrever “??” sem erros) ?





Bonemine no Irão, dia 5

12 10 2008

Quinto dia sem a minha alma gémea e finalmente estou razoavelmente adaptado e com tempo para vir à tipografia da aldeia. A minha mente tem andado dividida entre o fuso horário português e o persa, e a mandar mensagens à Bonemine a recomendar que compre o máximo de bens que valham dinheiro em Portugal: barris de petróleo estão algo desvalorizados por estes dias, mas tapetes persas e pedras preciosas são sempre excelentes opções para trazer e preparar o sistema económico de troca directa cada vez mais próximo.

(eu confesso, a verdadeira razão para a demora deste post foi a dificuldade em escrever algo que juntasse o périplo da minha cara-metade pela Pérsia com o mäelstrom que tomou conta do mundo…)





A primeira crise económica do séc. XXI exige soluções do séc. XXI

20 09 2008

Fiquei supreendido com o artigo de opinião de José Miguél Júdice no Público de ontem, não pela lucidez do mesmo, que a isso já vou estando habituado, mas pelo facto de ver pela primeira vez defendido na opinião pública algo que me parece muitíssimo interessante e que resolveria muitos dos problemas económicos prementes à mudança de paradigma que atravessamos (queira-se vê-lo ou não). É ainda mais interessante vindo de alguém da área política de Júdice, porque a primeira vez que li algumas destas propostas foi no programa político do PCP às últimas legislativas…

…é preciso evitar que se cometa o erro que os historiadores atribuem aos militares, evitar fazer a guerra anterior como se nada tivesse mudado. O intervencionismo keynesiano foi uma adequada resposta à crise de então, mas de nada serve para a crise actual. Assim como não se deve tentar copiar outros paradigmas (aliás, fracassados) e transpô-los para aqui: criar uma polícia mundial para manter a ordem nos mercados financeiros é tão inadequado como enviar tropas para locais hostis e tentar com isso mudar a reaidade das coisas.

O que importa fazer é ter a coragem de assumir que o paradigma fiscal do mundo modermo (os impostos são pagos pelas transacções da economia real e pelos rendimentos das pessoas físicas que produzem, a protecção social é feita por descontos cobrados às empresas com base no número de trabalhadores), este paradigma tem de ser substituído, porque está na génese da deriva enlouquecida da realidade virtual.

Se o investimento fosse beneficiado fiscalmente, se os lucros da (legítima) actividade especulativa fossem taxados, se a protecção social fosse calculada com base na rentabilidade e não no número de trabalhadores, se houvesse um preço social a aplicar nestes produtos financeiros para libertar a carga fiscal irracional que cai na economia real (bem mais fácil de fiscalizar), creio que o mundo melhorava. Não acredito que o mundo seja capaz de o fazer. Mas é pena que não se aproveite esta oportunidade. Até porque, quem sabe, talvez ainda vamos a tempo.

Bravo, bravo, bravo!





Depois da tempestade a bonança, depois da bonança nova tempestade virá

20 09 2008

A semana começou com um banco de investimento a falir. As bolsas caíram a pique. Continuou com uma seguradora a ser salva in extremis, e as bolsas continuaram a cair. Era o salve-se quem puder. O sistema capitalista descobria-se nu. O Fed, já exaurido com as desesperadas respostas às crises anteriores, já estava sem capacidade de resposta – foi em boa parte por isso que as bolsas tanto caíram, por sentirem furar-se o seu penúltimo páraquedas. Restava o último: a administração Bush, que agora reagiu e prometeu injecção maciça de capital.

O sistema financeiro reagiu prontamente, as bolsas animam-se, ganha-se dinheiro brutalmente de novo, tudo parece bem na Terra do Nunca que vai de Wall Street à City londrina, a Frankfurt, Paris, Madrid, etc., canta-se e dança-se sob a redoma de vidro das praças financeiras, sem nenhuma ligação com o mundo real.

Não cuidam que essa redoma repousa sobre uma praia e que do lado de fora, na enseada, há pessoas normais, empobrecidas pelo vai e vem das enormes ondas (dentro da redoma chamam-lhes “crises”), que gostariam de fugir se tivessem para onde, porque reparam que neste momento, nessa enseada o mar recua, recua, recua…  e porque sabem que isso significa que o indomável e insondável mar capitalista está a preparar a próxima gigantesca vaga.





E quando se pensa que a economia já não vai piorar mais…

16 09 2008

…ela arranja forma de piorar um pouco mais ainda. Desta vez o supostamente virtuoso capitalismo desregulado conseguiu levar à falência o quarto maior banco americano, levando a uma onda de choque bolsista que só piorará as coisas para o já fragilizado sistema financeiro do chamado “primeiro mundo”.

Tenho vindo sistematicamente a colocar-me do lado dos optimistas nesta crise, achando sempre que o seu impacto será menor do que depois se revela ser. Por isso, neste momento, abster-me-ei de fazer previsões. Neste momento, já não sei qual acabará por ser o impacto final desta crise financeira.

Com a notícia desta falência – que a concretizar-se é deveras grave – a juntar-se aos problemas que levaram à nacionalização mais ou menos encapotada das entidades que gerem metade das hipotecas de casas nos Estados Unidos (quem diria, num país que apregoa ser o mais economicamente liberal do mundo), e numa altura em que a economia americana (surpreendentemente face ao seu péssimo estado macroeconómico) até parecia estar a responder um pouco à terapia de ultra-choque aplicada (intervenção governamental maciça), já nada pode ser dado como adquirido. Mesmo os decisores, governo e Federal Bank, parecem ter chegado aos limites das suas possibilidades interventivas e das suas capacidades.

Para a Europa, que com a sua economia macroeconomicamente saudável se julgava em melhor estado para responder à crise – e com uma economia não tão desregulada, também nada pode ser dado como adquirido. Também aqui a crise se faz e fará ainda sentir de forma muito mais forte que o inicialmente esperado.

Já ninguém prevê quando poderá haver melhorias – eu pelo menos já não me atrevo a fazê-lo, e a única previsão que faço é que mais nuvens negras virão ainda antes de o céu deixar de estar nublado.





Pequim rima com Berlim

7 08 2008

Faltam 2 dias para a abertura dos Jogos Olímpicos mais vergonhosos desde há muito tempo. Há muitos motivos pelos quais este evento não devia acontecer onde vai acontecer; ou, já que vai o vai ser, pelos quais devia ser ignorado; ou, já que não o será, pelos quais devia ser boicotado. Já que também isto não acontecerá, restam atitudes individuais de quem se sente demasiado indignado para nada fazer. É o meu caso, obviamente.

Ponderei se deveria boicotar os Jogos não vendo qualquer uma das provas – o que me custaria, fã acérrimo de desporto como sou mas que faria resolutamente se concluísse que tal era útil. Em alternativa, poderia boicotar as empresas que patrocinam o evento. No limite, como chegou a ser alvo de reportagem, poderia evitar produtos made in China. Acabei por chegar à conclusão de que nenhuma destas acções teria sequer impacto (ou, no caso da última, não seria sequer exequível), por partirem de um indivíduo, e porque tanto quanto saiba poucos haverá (se houver alguns) a encetar tais formas de protesto. Se houvesse um movimento mais ou menos generalizado neste sentido, consideraria juntar-me a ele, embora pense que o impacto continuaria a ser reduzidíssimo.

Os Jogos Olímpicos representam acima de tudo oportunidades de negócios milionários, nada que milimétricos consumidores individuais possam sequer beliscar. Patrocínios de grandes empresas estão já efectuados e os lucros realizados. Oportunidades de melhorar a carreira dos atletas presentes poderiam ser beliscadas por um boicote desportivo, mas não seria justo para estes, meros peões inocentes num jogo que os ultrapassa. A abertura de novos mercados aos produtos do resto do mundo pode ou não acontecer, mas depende da vontade das empresas e das lideranças políticas – e ambas, face à enorme dimensão da China e ao que tal representa como mercado e como potencial de enriquecimento das nações, foi sempre claro de que lado sempre ficariam.

Resta-me assim, enquanto autor de blog, usar a visibilidade que este possa assumir (embora – suspiro – a minha meia dúzia de leitores diários também não me permita ambicionar muito) para denegrir um dos objectivos fundamentais que a China tenta atingir com estes Jogos: mostrar ao mundo não só que já é um grande (disso já ninguém duvida), mas que merece sê-lo, e que quer ser visto como legítima potência que consegue organizar com sucesso e irrepreensivelmente o maior evento do planeta. Ora há aqui várias premissas em que cidadãos politicamente conscientes, mesmo a nível individual, podem colocar pedras na engrenagem. O meu blog, sozinho, nada conta, mas dada a natureza em rede da blogosfera, se mais houver como eu – tenho a certeza que há -  se mais links se espalharem pela blogosfera, muito mais pequenas pedras emperrarão esta engrenagem.

Porque a China não pretende apenas que o seu povo se orgulhe dos Jogos – isso, com mais ou menos manipulação informativa, é um dado adquirido – mas também que o resto do mundo reconheça o mesmo. Este reconhecimento parte da percepção que dos Jogos for dada por parte das fontes informativas: jornais, televisões, rádios, e também blogs. Se por esta última via a percepção para o mundo for a de uns jogos grandiosos mas inadmissível e politicamente manipulados, pelo menos em parte o grande desígnio chinês terá falhado.

Aliás, a catadupa de notícias que se tem sucedido nos últimos tempos com o natural virar dos holofotes mediáticos para Pequim prenuncia isto mesmo: que o mundo não verá estes Jogos como o coming of age da China, mas antes como uma bruta e por isso indesejada manifestação de força por parte de um país ainda até certo ponto pária. A Economist, como escreveu esta semana, concluiu já que a modernização chinesa está a ser efectuada não através dos Jogos mas apesar destes, já que têm representado uma regressão na muito progressiva abertura do regime. Isto é algo do qual o mundo já se está a aperceber e do qual, espero, tirará as suas conclusões.

Do que eu já me apercebi é que perpassa já por todo o lado algo inteiramente diferente do gongorismo desejado e apregoado por Pequim, uma certa sensação negramente familiar e arrepiante… Talvez que, ao contrário do que a China pretende, estes Jogos não fiquem para a História como a definitiva afirmação de um país, como reedição de Tóquio ou Seul. Talvez que sejam lembrados como o triunfo de uma vontade totalitarista, com inexoráveis e sinistros ecos de tempos mais negros… porque, sim, definitivamente Pequim rima com Berlim.

(no Público de hoje)

O triunfo da vontade da China

(Nina L. Khrucheva)

A escolha de Albert Speer Jr. pelos dirigentes chineses não pode deixar de evocar os totalitarismos do século XX

Quando tiver lugar a cerimónia de abertura dos Jogos Olímicos de Pequim, os espectadores vão ser presenteados com um espectáculo meticulosamente coreografado e banhado no mais puro kitsch nacionalista.
É claro que a última coisa que a China deseja para os seus Jogos Olímpicos é vê-los associados a imagens que recordem as tropas de choque hitlerianas marchando a passo de ganso. Não esqueçamos que o nacionalismo oficial chinês proclama que o “progresso pacífico” do país evolui num idílio de “desenvolvimento harmonioso”. Mas a verdade é que, tanto do ponto de vista estético como político, o paralelo não tem nada de rebuscado.
Na realidade, ao escolher Albert Speer Jr. – o filho do arquitecto favorito de Hitler e designer chefe dos Jogos Olímpicos de Berlim de 1936 – para conceber o plano geral dos Jogos de Pequim, é o próprio Governo chinês que torna impossível esquecer a radical politização da estética que foi uma marca dos totalitarismos do século XX. Da mesma maneira que fizeram esses regimes, fascistas ou comunistas, também os líderes chineses tentaram transformar o espaço público e os eventos desportivos numa prova visível das suas competências e do seu direito a governar.
A encomenda que foi feita a Speer Jr. foi a de conceber o plano geral para o acesso ao complexo olímpico de Pequim. O seu conceito central consistiu na construção de uma imponente avenida que liga a Cidade Proibida ao Estádio Nacional, onde vai ter lugar a cerimónia de abertura. O plano do seu pai para “Germânia” – o nome escolhido por Hitler para a Berlim que planeava construir depois da Segunda Guerra Mundial – também se organizava em torno de um eixo central, igualmente poderoso.
Os dirigentes chineses vêem os Jogos Olímpicos como um palco para demonstrar ao mundo a extraordinária vitalidade do país que construíram nas últimas três décadas. E essa demonstração serve um objectivo interno ainda mais importante: legitimar a futura permanência do actual regime aos olhos dos chineses comuns. Dado este imperativo, uma linguagem arquitectónica que se caracteriza pela grandiloquência e pelo gigantismo parece quase inevitável.
É por tudo isto que não é uma surpresa que os Jogos de Pequim se pareçam com os orgulhosos Jogos que mereceram tanta atenção do Führer e seduziram as massas alemãs em 1936. Tal como os Jogos de Pequim, as olimpíadas de Berlim foram concebidas como um baile de debutantes, uma grande estreia. A máquina de propaganda nazi de Josef Goebbels foi utilizada a fundo. As imagens de atletas – utilizadas de uma forma brilhante no aclamado documentário de Leni Riefenstahl, Olímpia – pareciam criar um laço entre os nazis e os antigos gregos e confirmar assim o mito nazi segundo o qual os alemães e a civilização alemã eram os verdadeiros herdeiros da cultura “ariana” da Antiguidade clássica.
Enquanto desenhava os planos para os Jogos de Pequim, Speer Jr., um reputado arquitecto e urbanista, também pensou, tal como o seu pai, criar uma metrópole futurista global. Mas é claro que a linguagem que usou para vender a sua ideia aos chineses foi muito diferente da que o seu pai usou para apresentar os seus planos a Hitler. Em vez de sublinhar a magnificência dos seus projectos, o jovem Speer preferiu insistir no seu carácter ecológico. A ideia era transportar a cidade de Pequim, com a sua história velha de 2000 anos, para a hipermodernidade – enquanto a Berlim que o seu pai tinha planeado em 1936 era “simplesmente megalómana”.
É evidente que os filhos não devem ser julgados pelos pecados dos pais. Mas, neste caso, quando o filho usa elementos essenciais que constituíam os princípios arquitectónicos do seu pai e serve um regime que tenta usar os Jogos para as mesmas razões que animaram Hitler, não estará ele conscientemente a reflectir esses pecados?
Os regimes totalitários – os nazis, os soviéticos em 1980 e agora os chineses – querem ser anfitriões dos Jogos Olímpicos para mostrar ao mundo um sinal da sua superioridade. A China acredita que encontrou um modelo próprio para desenvolver e modernizar o país e os seus dirigentes olham para os Jogos da mesma maneira que os nazis e Leonid Brejnev olharam: como uma maneira de “vender” o seu modelo a uma audiência global.
É evidente que os chineses mostraram ser politicamente insensíveis ao escolher um arquitecto cujo nome tem tais conotações políticas. E é possível que o nome de Speer não tenha pesado da sua escolha. O que os chineses queriam era encenar uns Jogos que pusesse em evidência uma certa imagem de si mesmos e Speer Jr., inspirando-se na arquitectura do poder que o seu pai dominava, pôde apresentar a solução desejada.
A concretização da visão olímpica de Speer Jr. e da dos seus patronos assinala o fim de um bem-vindo interlúdio. Durante os anos que se seguiram ao fim da guerra fria, a política esteve afastada dos Jogos. Uma medalha de ouro representava as qualidades desportivas e a dedicação dos atletas individuais e não os supostos méritos do sistema político que os produzia.
Mas agora regressámos a uma estética de mesmerismo político, que se reflecte na declaração do Governo do país anfitrião, segundo a qual a China deverá ganhar mais medalhas de ouro do que qualquer outro país até aqui.
Quando a tocha olímpica acabar o seu percurso – que foi aliás uma ideia dos nazis, usada pela primeira vez nos jogos de 1936 – ao longo da avenida do poder imaginada por Speer Jr., o mundo poderá de novo testemunhar o triunfo da vontade totalitária.
Nina Khrucheva é professora de Relações Internacionais na New School University, em Nova Iorque, e é senior fellow do World Policy Institute de Nova Iorque. É autora do livro Imagining Nabokov: Russia between Art and Politics. © Project Syndicate, 2008 (www.project-syndicate.org)





Sócrates e o triunfalismo precoce

4 08 2008

Na primeira página do Público de hoje:

Carro eléctrico não vai ter efeito pretendido na economia

Empresas descontentes com a pequena dimensão do projecto

As negociações com a Nissan-Renault sobre os carros eléctricos caminham para uma versão reduzida. Ou seja, fica-se pela comercialização sem qualquer produção industrial. Por outro lado, o consórcio formado para a rede de carregamento e substituição de baterias para estes veículos limpos dá sinais de menor interesse pelo negócio.

Não gosto de me pronunciar como optimista ou pessimista acerca de um projecto antes de ter algumas certezas quanto às premissas do mesmo. Parece no entanto que, numa altura em que para além do gongorismo de Sócrates praticamente só havia pontos de interrogação sobre os moldes em que este se desenrolaria, alguns pessimistas impenitentes tiveram razão, mesmo antes de tempo, nas suas previsões…





O fim do petróleo – cenário não catastrofista

13 07 2008

Estava a comentar mais uma interessante análise do Dissidente X quando me apercebi do rumo que o meu comentário levou, e do peso do que estava a escrever. Porque é o assunto da moda, incontornável pelo peso que tem no nosso sistema de vida – o petróleo – decidi adaptá-lo a post.

Ultimamente tenho visto alguns comentários isolados, de pseudo-analistas, de jornalistas e de bloggers (por grau crescente de relevância) que começam por “quando o preço do petróelo baixar…”.

Sempre que leio isto não consigo evitar um sorriso triste (como gostava que fosse um sorriso irónico…) e penso como estão iludidos, ou melhor, como querem estar iludidos. O grande problema é que ainda não nos consciencializámos da realidade, melhor, ainda não nos quisermos consciencializar. É o mesmo que quando custa acreditar que um parente próximo está para morrer: é o tipo de má notícia que temos tendência a negar para manter a sanidada mental, e compreendo este mecanismo.

Contudo, por muito que queira acreditar, não consigo. Não creio que o petróleo baixe nem sequer aos 100 dólares, embora gostasse de estar redondamente errado.

Não estou a ser catastrofista e sei precisamente o que vou dizer e o peso do que vou dizer. O preço do petróleo não vai baixar, pelo menos não significativamente (gostava de acreditar nos 100 dólares…), e não mais do que no curto prazo (dias, semanas no máximo).
Podem gravar as minhas palavras. O preço do petróleo não vai baixar nunca mais.

O que é grave é que como ainda não nos quisemos consciencializar disto, ainda não pensámos a sério, mesmo a sério, em como terá de ser o mundo depois disso.
O petróleo vai acabar, isso é óbvio – por isso se chama recurso não renovável. Em relação a quando vai acabar, suspeito que as petrolíferas tenham uma ideia bem mais nítida do que o que deixam transparecer…

Especula-se muito sobre o “pico do petróleo”, o momento em que a produção petrolífera chegará ao máximo e começará a baixar, alguns dizem mesmo que esse pico já passou e não nos dizem para não criar alarmismo…

Acredito que se não aconteceu (nãio excluo a hipótese), está para acontecer nos próximos anos, o que explica a histeria crescente dos mercados. Mas claro que ninguém nos vai avisar disto…





Eleitoralismo precoce

28 03 2008

Está confirmado oficialmente (como se necessitasse de confirmação): o Governo está já em campanha eleitoral. A descida do IVA de 21 para 20% foi anunciada por Sócrates como um “sinal” – só que, em meu entender, um sinal no sentido errado.
Do ponto de vista económico (algo de que eu entendo um pouco), esta descida até faria sentido se se pretendesse estimular a economia, numa altura em que paira o espectro de uma nova crise de que ainda não se sabe muito bem a natureza, duração ou dimensão. Deste ponto de vista, os agentes económicos receberiam um pequeno estímulo (mais em termos de expectativas que outra coisa, mas estas em Economia contam muito) a não reduzirem a sua actividade. No entanto, o discurso de Sócrates não foi neste sentido, mas antes de o “sinal” ser de que as maiores dificuldades já passaram.
Ora isto é duplamente mentira. Para além de ser nesta altura impossível prever com alguma certeza como evoluirá nos próximos tempos a economia (a portuguesa, a europeia, a americana, a mundial), qualquer economista minimamente sério (e menos engagé politicamente…) dirá que a redução de impostos só faz sentido quando o défice atingir um patamar bastante mais baixo.
Em termos de dificuldade de aplicação, o que o Governo fez até agora – baixar o défice além dos 3% – é o mais simples. Difícil mesmo é baixar mais ainda, para um nível que seja sustentado no longo prazo (pelo menos entre 1,5 e 2%). Este défice de 2,6% pode muito facilmente resvalar para cima, como já tantas vezes aconteceu em Portugal nos últimos tempos, mais ainda pela tentação eleitoralista. Seria preciso baixar mais ainda para se poder com segurança aplicar este tipo de medidas estimuladoras da economia.
Como nem Sócrates nem Teixeira dos Santos levaram o seu discurso por aqui, e apesar de classificarem a decisão como “prudente” (e é-o apenas porque a descida terá efeitos pouco mais que marginais sobre os preços, embora nem tanto sobre as finanças públicas), sobra apenas a explicação maldosa para esta medida…





A recessão está aí

22 01 2008

Ontem todas as bolsas mundiais tiveram um dia negro. Viveu-se uma atmosfera de autêntico crash, mais ainda que no 11 de Setembro e dias seguintes. Mais do que os investidores, parece que é o próprio capitalismo que está em pânico.

Há alguns motivos de preocupação, mas racionalmente esta queda, e o medo generalizado nos mercados financeiros, não deveria existir. É verdade que a economia americana parece engripada – é provável que tecnicamente já esteja em recessão – mas os indicadores na Europa são muito menos maus, e menos ainda a Oriente – a China, aliás, está a passar intocada por esta crise e respira saúde económica. Por isso, há razões para que as bolsas americanas caiam, embora não para que caiam tanto. Já na Europa e Ásia, tudo aponta para um abrandamento económico, pelo que os mercados financeiros deveriam estar a reflectir esse sentimento, mas em todo o caso não em queda livre como nos últimos dias.

É aliás irónico que esta crise tenha começado porque o capitalismo americano, sob pressão de um constante crescimento para sobreviver – a metáfora da bicicleta, que tem de continuamente rolar para não cair, é aqui válida – engendrou mecanismos para emprestar dinheiro a quem não o podia pagar; depois, com a descida do preço das casas, que funcionavam como garantia, essas pessoas que à partida não tinham condições para pagar um empréstimo (surpresa)…  não pagaram.

O que é para mim mais preocupante em tudo isto é o facto de uma crise económica eminentemente americana poder fazer todo o mundo, se não entrar em recessão pelo menos quase estagnar, apenas releva do carácter intrinsecamente muito pouco racional do capitalismo como sistema económico…