Mal chegado à sua cela em Haia, Karadžić encetou o seu one man show, circo pessoal do mesmo estilo do que foi encenado por Milošević na mesma posição. Encenação eficaz, sem dúvida, pois sabe como o seu falecido colega de crimes que os media ocidentais morderão sempre o isco de qualquer coisa que seja relacionada com o seu caso e com a palavra maldita de Srebrenica, e que o morderão tanto mais quanto tal representar uma auto-promoção, uma hiper-mediatização da sua imagem – o jogo de simultaneamente usarem a figura de Karadžić e serem por ela usados é consciente, é um tango demoníaco que de resto estão habituados a dançar.
Particularmente relevante, no meio do show off, foram as afirmações que fez em relação a hipotéticas garantias que lhe haviam sido prestadas pelos americanos, em particular por quem negociou as tréguas da guerra da Bósnia, Richard Holbrooke, de que o deixariam viver em liberdade se desaparecesse do espaço público – o que Karadžić diligentemente fez. É relevante porque, se insistir nesta linha de argumentação, durante o julgamento novos elementos podem surgir, que poderão não ser muito do agrado de muita gente a Ocidente dos Balcãs… (claro que o alegado receio de Karadžić pela própria vida é uma hiperbolização das suas afirmações, condizentes com a sua estratégia mediática)
Penso que neste ponto ninguém será suficientemente ingénuo a ponto de acreditar na veemente negação destes factos por parte do próprio e da diplomacia americana. É sabido que terminada a guerra na Bósnia Karadžić ganhou alguns inesperados amigos, os quais poderão sem dúvida ter algo a temer deste julgamento.
Sem ter quaisquer factos que suportem esta teoria – nem o seu contrário de resto – não me custa minimamente a acreditar que este acordo (e talvez outros semelhantes com outros criminosos de guerra) tenha sido secretamente celebrado, como acredito que o tenha sido numa atitude até benévola, aceitando este de certa forma alto preço (para todos os que vivem naquela região, para as vítimas em particular, mas não naturalmente para os Herodes ocidentais que o negociaram…) como forma de garantir uma paz minimamente duradoura.
Foi mais uma vez um tango com o próprio diabo, que felizmente terminou com o encarceramento deste…

