Os amigos de Karadžić

2 08 2008

Mal chegado à sua cela em Haia, Karadžić encetou o seu one man show, circo pessoal do mesmo estilo do que foi encenado por Milošević na mesma posição. Encenação eficaz, sem dúvida, pois sabe como o seu falecido colega de crimes que os media ocidentais morderão sempre o isco de qualquer coisa que seja relacionada com o seu caso e com a palavra maldita de Srebrenica, e que o morderão tanto mais quanto tal representar uma auto-promoção, uma hiper-mediatização da sua imagem – o jogo de simultaneamente usarem a figura de Karadžić e serem por ela usados é consciente, é um tango demoníaco que de resto estão habituados a dançar.

Particularmente relevante, no meio do show off, foram as afirmações que fez em relação a hipotéticas garantias que lhe haviam sido prestadas pelos americanos, em particular por quem negociou as tréguas da guerra da Bósnia, Richard Holbrooke, de que o deixariam viver em liberdade se desaparecesse do espaço público – o que Karadžić diligentemente fez. É relevante porque, se insistir nesta linha de argumentação, durante o julgamento novos elementos podem surgir, que poderão não ser muito do agrado de muita gente a Ocidente dos Balcãs… (claro que o alegado receio de Karadžić pela própria vida é uma hiperbolização das suas afirmações, condizentes com a sua estratégia mediática)

Penso que neste ponto ninguém será suficientemente ingénuo a ponto de acreditar na veemente negação destes factos por parte do próprio e da diplomacia americana. É sabido que terminada a guerra na Bósnia Karadžić ganhou alguns inesperados amigos, os quais poderão sem dúvida ter algo a temer deste julgamento.

Sem ter quaisquer factos que suportem esta teoria – nem o seu contrário de resto – não me custa minimamente a acreditar que este acordo (e talvez outros semelhantes com outros criminosos de guerra) tenha sido secretamente celebrado, como acredito que o tenha sido numa atitude até benévola, aceitando este de certa forma alto preço (para todos os que vivem naquela região, para as vítimas em particular, mas não naturalmente para os Herodes ocidentais que o negociaram…) como forma de garantir uma paz minimamente duradoura.

Foi mais uma vez um tango com o próprio diabo, que felizmente terminou com o encarceramento deste…





A longa fuga de Radovan Karadžić terminou

22 07 2008

Radovan Karadžić já não é um fugitivo: foi ontem capturado pelas forças de segurança sérvias. Espera-se que seja em breve decidida a sua extradição para Haia para ser julgado pelo TPIJ. Eu espero, adicionalmente, que desta vez o julgamento vá até ao fim e que ele sobreviva para saber que passará o resto da sua vida atrás das grades.

Ao que parece, Karadžić vivia em Belgrado sob um eficiente disfarce (a imagem disponível no site da BBC mostram-no com uma barba “saddamesca”). Claro que isto não explica que tenha conseguido iludir tudo e todos durante 13 anos: isso explica-se antes pelo puro desinteresse sérvio em capturá-lo, tal como a Ratko Mladić, face a uma opinião pública e política generalizadamente avessa a qualquer colaboração com o TPIJ (desde sempre visto como ilegítima ingerência ocidental em assuntos internos sérvios).

Não deixa por isso de ser sintomático que a sua captura ocorra pouco tempo depois da tomada de posse do novo governo sérvio – uma heteróclita coligação entre o partido eurofórico do presidente Boris Tadić, os socialistas (cada vez menos o partido radical do tempo de Milošević e mais um partido socialista “tradicional”) e várias pequenas formações. Ainda segundo a BBC, tal deve-se a uma mudança consciente de rumo e, particularmente, à substituição do chefe da secreta sérvia, que terá retirado cobertura política a quem sabia do paradeiro de Karadžić.

A captura é assim uma boa notícia para o governo, mas também para a própria Sérvia e o seu futuro, tal como é uma boa notícia para a Europa. E é um bom momento para o TPI e a sua cruzada contra os crimes de guerra cometidos na débâcle da ex-Jugoslávia.

Agora só falta mesmo o ignóbil Mladić.





Não às detenções secretas

13 07 2008

Apelo da Amnistia Internacional a Nicolas Sarkozy, enquanto presidente em exercício da União Europeia, para uma condenação à política de “rendição” americana. Podem assinar e enviar o apelo online. Este é o texto:

Dear President Sarkozy,

In view of France’s Presidency of the European Union, I urge you to lead the EU Council to publicly condemn rendition and secret detention as unlawful. I am deeply concerned that the recommendations of the European Parliament and the Council of Europe made after investigations into Europe’s role in rendition and secret detention have not been implemented. I further call on you to:- Ensure that Members States establish independent parliamentary and/or judicial inquiries into allegations of co-operation in rendition and secret detention;
- Promote clear and binding safeguards against the use of the airspace or airports of EU Member States for the purposes of unlawful detention and rendition.Respectfully,
Nome <input … >
Apelido <input … >
E-mail <input … >
Cidade <input … >
País <input … >




Discurso de Abraracourcix a propósito do pedido de perdão aos aborígenes

15 02 2008

Gauleses, gaulesas,

Sabiam vocês que a cultura aborígene, na Austrália, era pré-neolítica, desconhecendo a agricultura até à chegada dos Europeus?
Sabiam que com esse argumento só em 1967 os aborígenes foram reconhecidos como cidadãos da Austrália, uma vez que até aí não eram sequer vistos como humanos, antes como uma sub-espécie, atrasada e condenada à inexorável extinção?
Sabiam vocês, gauleses e gaulesas, o que é a stolen generation? A “geração roubada”, que na realidade são muitas gerações roubadas, centenas de milhar de crianças, gerações inteiras de crianças que foram retiradas à força aos pais e criadas por famílias de acolhimento – brancas e mais propensas a abusarem das crianças do que a educarem-nas – ou, na maior parte dos casos, por lares de acolhimento? Conseguem alcançar a repulsiva enormidade do que isso é?
Sabiam vocês, os poucos mas cultos e excelsos gauleses que ocasionalmente visitam esta aldeia blogosférica, desta realidade ainda mais abjecta que o pior dos apartheids?

Vem este discurso do vosso chefe gaulês preferido a propósito do gesto simbólico do novo primeiro-ministro australiano, Kevin Rudd, que ontem proferiu publicamente desculpa ao povo aborígene por todo o mal causado pelos brancos. Reconhecendo o carácter pluri-racial da Austrália, prometeu ainda desenvolver esforços para que de futuro a população branca e os aborígenes possam viver em harmonia, para que os aborígenes possam preservar a própria cultura, para que não sejam relegados para ghettos e possam viver com os mesmos direitos nas cidades australianas, entre os seus compatriotas anglo-saxónicos ou imigrantes de diversas origens. Não sei se foram estas as palavras ou se Rudd sequer referiu estes pontos, mas era este o espírito do seu discurso.
Sendo apenas simbólico, não deixa de ser um gesto enorme, esperança de boa vontade e integração futura, e merecedor de todos os aplausos!