Ressaca pós-Olímpicos: ver a História acontecer

28 08 2008

Este é um post que tenho vindo a adiar escrever. Aliás, por motivos vários, tenho vindo a adiar várias coisas nos últimos dias – tudo menos o mais importante colocado em hold por motivos que não saberia explicar a mim mesmo. Embora saiba perfeitamente a causa, é como se não o quisesse confessar, como se estivesse a ganhar coragem para um ridículo coming out.

Os Jogos já acabaram, o balanço ainda não – há quem esteja a sofrer do chamada “síndroma olímpica”, detectada por estes dias na China e divulgada ontem pela agência oficial chinesa, Xinhua. Os principais sintomas são: letargia, sentimento de perda, propensão para tornar a vida um muro de lamentações.

(no Público de hoje)

Pois bem, eu confesso. Não foi só na China. Também eu sou vítima do mesmo mal. Quando os Jogos Olímpicos terminaram, senti-me como que órfão. Como se não soubesse o que fazer a seguir. Já não me lembrava como era a minha vida antes.

Durante duas semanas, vivi ao ritmo de etéreas madrugadas em que me senti transportado para o Cubo de Água, acompanhando uma raia (Michael Phelps) enquanto conquistava as suas medalhas de ouro e enquanto ele e outros tritões e belas sereias (fiquei fã de Rebecca Addlington) batiam records atrás de records mundiais. Durante duas semanas, vivi ao ritmo de tardias manhãs prolongando-se sem almoço pela tarde fora para acompanhar fenómenos nunca vistos: um jamaicano mágico que bate records do mundo enquanto dança (Usain Bolt), outros jamaicanos igualmente rápidos, um português que salta para o infinito (Nélson Évora, claro), americanos que perdem ridículas estafetas, uma fria russa por uma vez rendida às lágrimas (Isinbayeva), o record olímpico de Carlos Lopes (24 anos de longevidade!) enfim batido…

Política à parte (já aqui deixei bem claro a minha oposição de princípio contra os Jogos serem em Pequim; sou no entanto amante de desporto, e uma vez que eles se realizam tenho que apreciar a parte desportiva, sem esquecer o resto, que não o fiz nest blog), estes serão, durante muitos e longos anos, os melhores Jogos Olímpicos de sempre, e é bom que os próximos organizadores voltem a uma fasquia “normal”, caso contrário eles deixarão de ser comportáveis seja para quem for. Parece que todos os deuses de todos os Olimpos se conjugaram para fazer destes Jogos algo que nunca mais será possível alcançar, pelo menos não tudo ao mesmo tempo: nunca mais esta conjugação de prestações desportivas tão extraordinárias – da ordem do mítico algumas – com a queda de superioridades históricas (a dos Estados Unidos nas medalhas), com uma organização que à partida já se sabia que seria insuperável – toda a força de um povo “colectivista” como o chinês – com o faraónico esforço financeiro em infra-estruturas fabulosas.

De tudo isto fui tendo a percepção ao longo de horas e horas de “jet lag televisivo”, de constantes saltos entre uma realidade quotidiana e a percepção de algo verdadeiramente importante a acontecer ali, naquele momento – e aqui a parte política da coisa deixa de estar à parte.

Uma daquelas raríssimas alturas em que, ao longo da vida, se tem a sensação de estar a ver a História a acontecer ali, à nossa frente (a última foi a 11 de Setembro de 2001), a mudar a nossa forma de ver o mundo.

Não, não estou a exagerar: estes Jogos mudaram-me mesmo.





Protesto número 2 em Pequim

21 08 2008

Mais Tibete, claro está.

Entretanto, já há teorias sobre a falta de manifestações em Pequim durante os Jogos Olímpicos, apesar de estas serem “autorizadas”. Claro que isto é um eufemismo, porque a definição chinesa de autorização implica muitas vezes “negociações” com quem apresenta o pedido de manifestação que inlcui amigáveis estadias em estabelecimentos governamentais supervisionados, se a amigável dissuasão verbal não chegar…

A minha teoria pessoal é que, mesmo que houvesse manifestações, seriam tão isoladas e dificilmente noticiáveis que o mais simples seria abafá-las, e delas nunca saberíamos fora das fronteiras do Império do Meio.

Estas imagens, aparentemente captadas por telemóvel (a CNN dizem que os 5 manifestantes foram detidos) são a excepção a comprovar esta regra:





Manipulações à chinesa

13 08 2008

No Público de hoje, notícia de manipulações tipicamente chinesas na cerimónia de abertura dos Jogos Olímpicos:

O “anjo sorridente” encantou na cerimónia de abertura dos Jogos, mas afinal não cantou

A menina-estrela que rendeu a China aos seus encantos vocais afinal só deve a sua fama à beleza. É que a voz que os 91 mil espectadores ouviram no estádio olímpico de Pequim (e que o mundo ouviu pela televisão) durante a cerimónia de abertura dos Jogos não era sua, mas a de outra menina que cantou escondida atrás do palco.
A organização sentiu que “devia projectar a imagem certa e pensar no que era melhor para a nação” e, assim, Lin Miaoke deu a cara “perfeita” ao mundo inteiro, enquanto Yang Peiyi lhe deu voz às escondidas.

Esta fez-me rir ironicamente:

(…) Algumas das imagens do fogo-de-artifício exibidas durante a cerimónia, supostamente captadas e transmitidas em tempo real, eram computorizadas. Wang Wei, vice-presidente do comité de organização, insistiu que houve mesmo fogo-de-artifício nessa noite e que a maioria das imagens eram genuínas. “Contudo, por causa da fraca visibilidade”, admitiu, “talvez se tenham usado algumas imagens gravadas”.
Xiao Qiang, um dissidente chinês, professor numa universidade na Califórnia, explicou à BBC que os dois incidentes demonstram a natureza das olimpíadas na China. “Não penso que tenham noção da falta de ética que isto demonstra. Eles não percebem os valores que estão impressos em atitudes deste tipo.”





Protesto número 1 em Pequim

7 08 2008

A favor do Tibete, claro está! Deu-me algum gozo ver estas imagens na TV ontem…

Outros motivos de negativo interesse em relação aos Jogos Olímpicos e que merecem ser aqui (ou continuar a ser) relevados:

  • a poluição:

ontem vi uma peça da CNN em que o repórter estava a cerca de 200 m do “Cubo de Água” e este quase não se via; também gostei de ver as fotos dos atletas americanos a saírem do aeroporto de Pequim com máscaras na cara

  • as algas mutantes no local das provas de vela parece que já foram retiradas (até o poderoso exército chinês ajudou), mas não deixo de relembrar este episódio que passou mais ou menos despercebido com um irónico sorriso
  • os filhos não carregam os pecados dos pais, mas um nome não se apaga, como aqui deixei escrito ontem, e o sombrio nome de Speer continuará associado à arquitectura olímpica

Espero haver mais destes “motivos de interesse” nos próximos dias, e seguramente que sobre eles irei postar aqui. É a minha profissão de fé, segundo o meu manifesto de ontem, para as semanas olímpicas.





Pequim rima com Berlim

7 08 2008

Faltam 2 dias para a abertura dos Jogos Olímpicos mais vergonhosos desde há muito tempo. Há muitos motivos pelos quais este evento não devia acontecer onde vai acontecer; ou, já que vai o vai ser, pelos quais devia ser ignorado; ou, já que não o será, pelos quais devia ser boicotado. Já que também isto não acontecerá, restam atitudes individuais de quem se sente demasiado indignado para nada fazer. É o meu caso, obviamente.

Ponderei se deveria boicotar os Jogos não vendo qualquer uma das provas – o que me custaria, fã acérrimo de desporto como sou mas que faria resolutamente se concluísse que tal era útil. Em alternativa, poderia boicotar as empresas que patrocinam o evento. No limite, como chegou a ser alvo de reportagem, poderia evitar produtos made in China. Acabei por chegar à conclusão de que nenhuma destas acções teria sequer impacto (ou, no caso da última, não seria sequer exequível), por partirem de um indivíduo, e porque tanto quanto saiba poucos haverá (se houver alguns) a encetar tais formas de protesto. Se houvesse um movimento mais ou menos generalizado neste sentido, consideraria juntar-me a ele, embora pense que o impacto continuaria a ser reduzidíssimo.

Os Jogos Olímpicos representam acima de tudo oportunidades de negócios milionários, nada que milimétricos consumidores individuais possam sequer beliscar. Patrocínios de grandes empresas estão já efectuados e os lucros realizados. Oportunidades de melhorar a carreira dos atletas presentes poderiam ser beliscadas por um boicote desportivo, mas não seria justo para estes, meros peões inocentes num jogo que os ultrapassa. A abertura de novos mercados aos produtos do resto do mundo pode ou não acontecer, mas depende da vontade das empresas e das lideranças políticas – e ambas, face à enorme dimensão da China e ao que tal representa como mercado e como potencial de enriquecimento das nações, foi sempre claro de que lado sempre ficariam.

Resta-me assim, enquanto autor de blog, usar a visibilidade que este possa assumir (embora – suspiro – a minha meia dúzia de leitores diários também não me permita ambicionar muito) para denegrir um dos objectivos fundamentais que a China tenta atingir com estes Jogos: mostrar ao mundo não só que já é um grande (disso já ninguém duvida), mas que merece sê-lo, e que quer ser visto como legítima potência que consegue organizar com sucesso e irrepreensivelmente o maior evento do planeta. Ora há aqui várias premissas em que cidadãos politicamente conscientes, mesmo a nível individual, podem colocar pedras na engrenagem. O meu blog, sozinho, nada conta, mas dada a natureza em rede da blogosfera, se mais houver como eu – tenho a certeza que há -  se mais links se espalharem pela blogosfera, muito mais pequenas pedras emperrarão esta engrenagem.

Porque a China não pretende apenas que o seu povo se orgulhe dos Jogos – isso, com mais ou menos manipulação informativa, é um dado adquirido – mas também que o resto do mundo reconheça o mesmo. Este reconhecimento parte da percepção que dos Jogos for dada por parte das fontes informativas: jornais, televisões, rádios, e também blogs. Se por esta última via a percepção para o mundo for a de uns jogos grandiosos mas inadmissível e politicamente manipulados, pelo menos em parte o grande desígnio chinês terá falhado.

Aliás, a catadupa de notícias que se tem sucedido nos últimos tempos com o natural virar dos holofotes mediáticos para Pequim prenuncia isto mesmo: que o mundo não verá estes Jogos como o coming of age da China, mas antes como uma bruta e por isso indesejada manifestação de força por parte de um país ainda até certo ponto pária. A Economist, como escreveu esta semana, concluiu já que a modernização chinesa está a ser efectuada não através dos Jogos mas apesar destes, já que têm representado uma regressão na muito progressiva abertura do regime. Isto é algo do qual o mundo já se está a aperceber e do qual, espero, tirará as suas conclusões.

Do que eu já me apercebi é que perpassa já por todo o lado algo inteiramente diferente do gongorismo desejado e apregoado por Pequim, uma certa sensação negramente familiar e arrepiante… Talvez que, ao contrário do que a China pretende, estes Jogos não fiquem para a História como a definitiva afirmação de um país, como reedição de Tóquio ou Seul. Talvez que sejam lembrados como o triunfo de uma vontade totalitarista, com inexoráveis e sinistros ecos de tempos mais negros… porque, sim, definitivamente Pequim rima com Berlim.

(no Público de hoje)

O triunfo da vontade da China

(Nina L. Khrucheva)

A escolha de Albert Speer Jr. pelos dirigentes chineses não pode deixar de evocar os totalitarismos do século XX

Quando tiver lugar a cerimónia de abertura dos Jogos Olímicos de Pequim, os espectadores vão ser presenteados com um espectáculo meticulosamente coreografado e banhado no mais puro kitsch nacionalista.
É claro que a última coisa que a China deseja para os seus Jogos Olímpicos é vê-los associados a imagens que recordem as tropas de choque hitlerianas marchando a passo de ganso. Não esqueçamos que o nacionalismo oficial chinês proclama que o “progresso pacífico” do país evolui num idílio de “desenvolvimento harmonioso”. Mas a verdade é que, tanto do ponto de vista estético como político, o paralelo não tem nada de rebuscado.
Na realidade, ao escolher Albert Speer Jr. – o filho do arquitecto favorito de Hitler e designer chefe dos Jogos Olímpicos de Berlim de 1936 – para conceber o plano geral dos Jogos de Pequim, é o próprio Governo chinês que torna impossível esquecer a radical politização da estética que foi uma marca dos totalitarismos do século XX. Da mesma maneira que fizeram esses regimes, fascistas ou comunistas, também os líderes chineses tentaram transformar o espaço público e os eventos desportivos numa prova visível das suas competências e do seu direito a governar.
A encomenda que foi feita a Speer Jr. foi a de conceber o plano geral para o acesso ao complexo olímpico de Pequim. O seu conceito central consistiu na construção de uma imponente avenida que liga a Cidade Proibida ao Estádio Nacional, onde vai ter lugar a cerimónia de abertura. O plano do seu pai para “Germânia” – o nome escolhido por Hitler para a Berlim que planeava construir depois da Segunda Guerra Mundial – também se organizava em torno de um eixo central, igualmente poderoso.
Os dirigentes chineses vêem os Jogos Olímpicos como um palco para demonstrar ao mundo a extraordinária vitalidade do país que construíram nas últimas três décadas. E essa demonstração serve um objectivo interno ainda mais importante: legitimar a futura permanência do actual regime aos olhos dos chineses comuns. Dado este imperativo, uma linguagem arquitectónica que se caracteriza pela grandiloquência e pelo gigantismo parece quase inevitável.
É por tudo isto que não é uma surpresa que os Jogos de Pequim se pareçam com os orgulhosos Jogos que mereceram tanta atenção do Führer e seduziram as massas alemãs em 1936. Tal como os Jogos de Pequim, as olimpíadas de Berlim foram concebidas como um baile de debutantes, uma grande estreia. A máquina de propaganda nazi de Josef Goebbels foi utilizada a fundo. As imagens de atletas – utilizadas de uma forma brilhante no aclamado documentário de Leni Riefenstahl, Olímpia – pareciam criar um laço entre os nazis e os antigos gregos e confirmar assim o mito nazi segundo o qual os alemães e a civilização alemã eram os verdadeiros herdeiros da cultura “ariana” da Antiguidade clássica.
Enquanto desenhava os planos para os Jogos de Pequim, Speer Jr., um reputado arquitecto e urbanista, também pensou, tal como o seu pai, criar uma metrópole futurista global. Mas é claro que a linguagem que usou para vender a sua ideia aos chineses foi muito diferente da que o seu pai usou para apresentar os seus planos a Hitler. Em vez de sublinhar a magnificência dos seus projectos, o jovem Speer preferiu insistir no seu carácter ecológico. A ideia era transportar a cidade de Pequim, com a sua história velha de 2000 anos, para a hipermodernidade – enquanto a Berlim que o seu pai tinha planeado em 1936 era “simplesmente megalómana”.
É evidente que os filhos não devem ser julgados pelos pecados dos pais. Mas, neste caso, quando o filho usa elementos essenciais que constituíam os princípios arquitectónicos do seu pai e serve um regime que tenta usar os Jogos para as mesmas razões que animaram Hitler, não estará ele conscientemente a reflectir esses pecados?
Os regimes totalitários – os nazis, os soviéticos em 1980 e agora os chineses – querem ser anfitriões dos Jogos Olímpicos para mostrar ao mundo um sinal da sua superioridade. A China acredita que encontrou um modelo próprio para desenvolver e modernizar o país e os seus dirigentes olham para os Jogos da mesma maneira que os nazis e Leonid Brejnev olharam: como uma maneira de “vender” o seu modelo a uma audiência global.
É evidente que os chineses mostraram ser politicamente insensíveis ao escolher um arquitecto cujo nome tem tais conotações políticas. E é possível que o nome de Speer não tenha pesado da sua escolha. O que os chineses queriam era encenar uns Jogos que pusesse em evidência uma certa imagem de si mesmos e Speer Jr., inspirando-se na arquitectura do poder que o seu pai dominava, pôde apresentar a solução desejada.
A concretização da visão olímpica de Speer Jr. e da dos seus patronos assinala o fim de um bem-vindo interlúdio. Durante os anos que se seguiram ao fim da guerra fria, a política esteve afastada dos Jogos. Uma medalha de ouro representava as qualidades desportivas e a dedicação dos atletas individuais e não os supostos méritos do sistema político que os produzia.
Mas agora regressámos a uma estética de mesmerismo político, que se reflecte na declaração do Governo do país anfitrião, segundo a qual a China deverá ganhar mais medalhas de ouro do que qualquer outro país até aqui.
Quando a tocha olímpica acabar o seu percurso – que foi aliás uma ideia dos nazis, usada pela primeira vez nos jogos de 1936 – ao longo da avenida do poder imaginada por Speer Jr., o mundo poderá de novo testemunhar o triunfo da vontade totalitária.
Nina Khrucheva é professora de Relações Internacionais na New School University, em Nova Iorque, e é senior fellow do World Policy Institute de Nova Iorque. É autora do livro Imagining Nabokov: Russia between Art and Politics. © Project Syndicate, 2008 (www.project-syndicate.org)