Este é um post que tenho vindo a adiar escrever. Aliás, por motivos vários, tenho vindo a adiar várias coisas nos últimos dias – tudo menos o mais importante colocado em hold por motivos que não saberia explicar a mim mesmo. Embora saiba perfeitamente a causa, é como se não o quisesse confessar, como se estivesse a ganhar coragem para um ridículo coming out.
Os Jogos já acabaram, o balanço ainda não – há quem esteja a sofrer do chamada “síndroma olímpica”, detectada por estes dias na China e divulgada ontem pela agência oficial chinesa, Xinhua. Os principais sintomas são: letargia, sentimento de perda, propensão para tornar a vida um muro de lamentações.
(no Público de hoje)
Pois bem, eu confesso. Não foi só na China. Também eu sou vítima do mesmo mal. Quando os Jogos Olímpicos terminaram, senti-me como que órfão. Como se não soubesse o que fazer a seguir. Já não me lembrava como era a minha vida antes.
Durante duas semanas, vivi ao ritmo de etéreas madrugadas em que me senti transportado para o Cubo de Água, acompanhando uma raia (Michael Phelps) enquanto conquistava as suas medalhas de ouro e enquanto ele e outros tritões e belas sereias (fiquei fã de Rebecca Addlington) batiam records atrás de records mundiais. Durante duas semanas, vivi ao ritmo de tardias manhãs prolongando-se sem almoço pela tarde fora para acompanhar fenómenos nunca vistos: um jamaicano mágico que bate records do mundo enquanto dança (Usain Bolt), outros jamaicanos igualmente rápidos, um português que salta para o infinito (Nélson Évora, claro), americanos que perdem ridículas estafetas, uma fria russa por uma vez rendida às lágrimas (Isinbayeva), o record olímpico de Carlos Lopes (24 anos de longevidade!) enfim batido…
Política à parte (já aqui deixei bem claro a minha oposição de princípio contra os Jogos serem em Pequim; sou no entanto amante de desporto, e uma vez que eles se realizam tenho que apreciar a parte desportiva, sem esquecer o resto, que não o fiz nest blog), estes serão, durante muitos e longos anos, os melhores Jogos Olímpicos de sempre, e é bom que os próximos organizadores voltem a uma fasquia “normal”, caso contrário eles deixarão de ser comportáveis seja para quem for. Parece que todos os deuses de todos os Olimpos se conjugaram para fazer destes Jogos algo que nunca mais será possível alcançar, pelo menos não tudo ao mesmo tempo: nunca mais esta conjugação de prestações desportivas tão extraordinárias – da ordem do mítico algumas – com a queda de superioridades históricas (a dos Estados Unidos nas medalhas), com uma organização que à partida já se sabia que seria insuperável – toda a força de um povo “colectivista” como o chinês – com o faraónico esforço financeiro em infra-estruturas fabulosas.
De tudo isto fui tendo a percepção ao longo de horas e horas de “jet lag televisivo”, de constantes saltos entre uma realidade quotidiana e a percepção de algo verdadeiramente importante a acontecer ali, naquele momento – e aqui a parte política da coisa deixa de estar à parte.
Uma daquelas raríssimas alturas em que, ao longo da vida, se tem a sensação de estar a ver a História a acontecer ali, à nossa frente (a última foi a 11 de Setembro de 2001), a mudar a nossa forma de ver o mundo.
Não, não estou a exagerar: estes Jogos mudaram-me mesmo.


Confesso que no inicio pensei em não ver simplesmente os jogos olímpicos…. seria a minha forma de boicote…
mas não consegui
há ali qualquer coisa de profundamente universal e humano…
mas desde muito muito nova que me lembro de ficar durante as férias do verão fascinada com os jogos olímpicos…
http://www.vkmag.com/galleries/gallery_olympische_spelen_2008_in_fotos_part_1/
http://www.vkmag.com/galleries/gallery_olympische_spelen_2008_in_fotos_part_2/
http://www.vkmag.com/galleries/gallery_olympische_spelen_2008_in_fotos_part_3/
Bem vinda Macambúzia!
Desculpa em primeiro lugar a demora na resposta e, em segundo (relacionado com a primeira), na aparição do comentário no blog (não é suposto ter moderação, mas o wordpress tem uma configuração que retém para moderação comentários com mais que “x” links, como prevenção anti-spam; não é o teu caso, claro!…).
Em relação aos Jogos, cheguei a pensar o mesmo que tu, mas também não consegui, pelo mesmo motivo que apontas, e que tentei explicar no post, não sei se muito bem. Seja como for, não foi só a minha forma de ver o mundo que mudou em Agosto: mesmo em relação ao desporto mudei, já não me desperta a mesma emoção por exemplo um jogo de futebol. Pensei que seria apenas a ressaca, mas talvez seja permanente, não sei… talvez algo em mim tenha também em relação ao desporto, a esse tal “profundamente universal e humano” que apontas mudado…