O pequeno Salazar de Manuela Ferreira Leite

19 11 2008

A líder (?) do PSD insiste em ir dando tiros nos pés. Depois da oposição ao aumento do salário mínimo, depois da antipatia com trabalhadores cabo-verdianos e ucranianos, a sugestão de suspender a democracia como única forma de levar reformas avante quase parece que é apenas mais uma declaração polémica fez-me perceber porque é que ela passa tanto tempo calada…

Por muito que  possa ser uma ironia – por quase ninguém compreendida, de resto – não acredito que não haja um fundo de verdade no que disse. Ou que não fosse aquilo mesmo que ela queria dizer, travestido de ironia, estilo “a brincar se dizem as verdades”. Ou que ela não estivesse a falar a sério e depois tivesse disfarçado.

Seja qual for a hipótese correcta, esta frase é reveladora de algo mais. Costuma-se dizer que todos os portugueses têm um pequeno Salazar dentro deles. Pois bem, o de Ferreira Leite parece ter definitivamente acordado.





Os piratas da Somália

17 11 2008

A Somália, o não-estado mais bem sucedido do mundo, está à beira do colapso total: num país em que dois terços já proclamaram a independência (Puntlândia) ou vivem em independência de facto (Somalilândia), o terço restante está quase a cair aos pés dos rebeldes islamistas – tal como já esteve antes, mas agora aparentemente nem os soldados etíopes conseguem ou querem evitar a tomada das principais cidades e infra-estruturas.

Não consigo desligar este colapso da recente escalada de ataques piratas ao largo da costa deste país e no estreito de Aden, por onde passa um terço do comércio marítimo mundial, vindo de e a caminho do canal de Suez. Num não-estado tão bem sucedido que dois dos seus portos já caíram nas mãos de piratas, é natural que estes ajam impunemente e consigam criar condições para ataques cada vez mais frequentes e ousados, como tem vindo a ser o caso.

Está ainda em posse destes piratas – não consigo saber quem serão, em termos de nacionalidade, por exemplo – um navio com 40 tanques ucranianos, há várias semanas, o que já parece bastante assustador (nem navios da armada russa conseguiram até agora desarmar os bem preparados piratas). Agora, tomaram de assalto um superpetroleiro saudita.

Continuo a assustar-me, sinto-me regressado no tempo ao ler estas notícias, ou penso estar a ler um livro do Sandokan… (o título deste post é plagiado de um desses livros de aventuras de Emilio Salgari que devorava em criança, “Os Piratas da Malásia”)

Mas não, incrivelmente é mesmo no nosso mundo que persistem águas e territórios sem lei nem grei (e cujo raio de acção se está a expandir…)., e começa-se agora a ver – tal como eu já tinha intuído há algum tempo – como isto nem é apenas um problema remoto nem se passa apenas num local remoto que não nos diz respeito.

Piratas e terroristas islâmicos, se é que ambos não estão interligados - será um problema bastante complicado de resolver…





Mundos extra-solares ao nosso alcance

15 11 2008

Hoje não quero falar de crises, nem de professores nem de ovos e tomates nem de vendedores de computadores que às vezes também governam.

Hoje quero olhar para o céu. Quero apenas que me deixem sonhar com os mundos extra-solares pela primeira vez vistos, com o telescópio Hubble (não o reformem, por favor), no espectro de luz visível.

fomalhaut-planet





A educação da ministra e dos sindicatos

12 11 2008

120 mil professores manifestaram-se sábado em Lisboa. Segundo a ministra, são todos ou sindicalistas ou reféns dos interesses destes. Como não há assim tantos filiados em sindicatos, seria então de admitir que há dezenas de milhar de professores tremendamente ingénuos e manipuláveis – mas descontentes, isso é que não.

Ouvir as declarações da ministra no sábado (já que ouvir ou ver seja o que for sobre a manif propriamente dita foi quase impossível, tal deve ter sido o nível de pressão governamental para menosprezar o que se passou) foi constrangedor, tal o nível de autismo demonstrado. Simplesmente não percebe, ou não quer perceber, que o mal-estar entre os professores, por muita manipulação político-sindical que exista (e existe, como é óbvio), já vai neste momento muito para além disso. Não teríamos a esmagadora maioria da classe profissional na rua se assim não fosse.

Concorde-se ou não, tenham ou não razão, exige-se que sejam ouvidos. Isso é o mínimo. Depois, já chegámos a um ponto em que todos estão de má fé. Sim, os sindicatos – que aliás neste momento já nem representam a totalidade dos professores, pois existem movimentos constituídos especificamente por causa do que se está a passar; isso também não quer dizer nada, senhora ministra? – os sindicatos, dizia, voltaram atrás no que tinham acordado com a ministra.

Mas também esta não cumpriu, nem em Março nem muito menos agora, com o que diz ser a sua postura de diálogo. Estão todos de costas voltadas, todos chegados a um ponto tal que o orgulho não lhes permite dar o primeiro passo de entendimento. E, no entanto, é tão fácil.

O governo quer a toda a força prosseguir com o processo de avaliação dos professores. Estes dizem que são a favor da avaliação, mas não desta avaliação. Afirmam que lhes retira tempo para o que deviam fazer – dar aulas – que é absurda, burocrática, kafkiana, etc.~Meus caros, até concordo com vocês. Até estou do vosso lado. Mas cabe-vos provar o que dizem.

Sejam sérios. Sem se renderem à tal comissão paritária, cheguem simplesmente à 5 de Outubro e coloquem em cima da mesa uma proposta de modelo de avaliação alternativa, ou as vossas propostas de alteração (profundas, calculo) ao modelo ministerial: “está aqui”.

Aí, a bola estará no campo do governo. Caber-lhe-á então provar que também ele é sério – o que sinceramente duvido, mas então serão eles a ficar mal. E ambas as partes poderão então provar que o que dizem é a sério e entender-se-ão, e todos terão o que querem: o governo um modelo de avaliação, os professores um bom modelo de avaliação.

Assim, como estamos, é que não: o governo a fazer finca-pé num modelo de avaliação que até parece saber que é mau mas ao menos está lá, o que é preciso é avaliar à viva força; os professores a parecerem teimar que afinal não querem avaliação alguma. Pelo menos é isto que parece. Mas não é verdade, pois não?





A realidade Obama

10 11 2008

Enfim refeito de três ressacas em cadeia – a histórica noite eleitoral americana, logo seguida de uma virose, logo seguida de uma noitada de aniversário – a ver se é desta que recomeço a escrever aqui regularmente… (se ainda tiver algum leitor, o que duvido)

A esta distância, já não faz sentido escrever gongóricas palavras sobre a minha euforia quando Obama ganhou e sobre o que significa para mim este passar de testemunho – passar da era Bush para a era Obama não necessita aliás de muitas explicações… Faz sentido sim, agora que a poeira da festa de vitória assenta, uma análise um pouco mais distanciada. Ao contrário dos cínicos comentadores que em Portugal abundam (olhando para a opinião publicada é fácil perceber porque é que Portugal era o país da Europa Ocidental com mais apoiantes de McCain), não penso que Obama terá que se render ao realismo e que acabará por  não fazer muita diferença – sobretudo não aquela que os seus apoiantes esperam – porque, simplesmente, não poderá ou não conseguirá, fruto das circunstâncias de crise e do próprio jogo da política.

Não sou daqueles que acha que Obama é o Messias reencarnado (era preciso que acreditasse que um tivesse existido, para começar), que caminha sobre as águas e nos levará ao Paraíso sobre a Terra. Desde o início da sua campanha que, como português e na perspectiva do “resto do mundo”, me mantive muito lúcido quanto a isto, até porque Obama é o presidente americano e obviamente defenderá, antes e acima de tudo, os interesses do seu país. É para isso que foi eleito, e para nada mais.Também sei que muito do que prometeu na campanha não será possível, não pelo jogo político (os democratas têm amplas maiorias nas duas câmaras do Capitólio) mas sobretudo pelas circunstâncias actuais.

A reforma do sistema de saúde americano provavelmente não avançará como ele queria, embora isso seja um interesse eminentemente americano. Não sei até que ponto conseguirá injectar confiança nos mercados com os já depauperados cofres federais e com os mercados americanos a desconfiar de tudo o que cheire a intervencionismo e a mexidas nas regalias de que beneficiaram nestes 20 anos de regabofe “reagonómico”. Não sei se conseguirá criar pontes com os republicanos, não sei se conseguirá unir o país, criar pontes para além da coligação de minorias que o levou à Casa Branca. Não sei até que ponto conseguirá, como apregoou, uma nova forma de fazer política, ou até se isso lhe interessa – os primeiros sinais na formação da sua equipa (ou os que foram postos a circular, o que é bastante diferente) são intrigantes.

O que sei é que, consiga ou não, algumas coisas serão, de certeza, muito diferentes. O combate às alterações climáticas vai finalmente ter o impulso vital que faltava, infelizmente já não a tempo de Kyoto. A Europa e os Estados Unidos vão ser bem mais próximos no contraponto à cada vez mais perigosa retórica russa. E Guantánamo, essa ignomínia, vai fechar. Para propostas de início de mandato, já não é pouco.





O meu palpite: Obama 338, McCain 200

3 11 2008

Obama Del Est McCain Del Est
338 27 200 24
Hawaii 4 Alaska 3
Washington 11 Montana 3 ??
Oregon 7 Idaho 4
California 55 Wyoming 3
Nevada 5 Utah 5
Colorado 9 Arizona 10
New Mexico 5 South Dakota 3
Minnesota 10 Nebraska 5
Iowa 7 Kansas 6
Wisconsin 10 Oklahoma 7
Illinois 21 Texas 34
Michigan 17 Arkansas 6
Ohio 20 ? Louisiana 9
Maine 4 Kentucky 8
New Hampshire 4 Tennessee 11
Vermont 3 Mississipi 6
Massachussets 12 Alabama 9
Rhode Island 4 West Virginia 5
Connecticut 7 South Carolina 8
New Jersey 15 Georgia 15 ?
Delaware 3
Maryland 10 North Dakota 3 ??
DC 3 Missouri 11 ??
New York 31 Indiana 11 ??
Pennsylvania 21 North Carolina 15 ??
Virginia 13
Florida 27 ??
E olhem que é um palpite cauteloso… todos os “swing states” desta eleição (marcados com ??), à excepção da Florida, estão na coluna de McCain




Terá a crise batido no fundo?

13 10 2008

Com o forte impulso de confiança do tardio acordo europeu para restabelecer a confiança aos bancos europeus, hoje foi dia de respirar fundo e ganhar fôlego para os marinheiros financeiros – sobretudo para os portugueses, sempre os mais histéricos nas perdas (os ratos são sempre os primeiros a abandonar o barco) como nos ganhos.

Talvez o mäelstrom já tenha deixado de rodar, talvez não. Talvez já se tenha batido no fundo, talvez não. Só os próximos dias dirão. Para já, trata-se mesmo só disso: de ganhar fôlego para o futuro próximo e para o que ele trará, seja isso mais negrume ou o início da escalada do poço.

Penso que ainda não vimos no entanto tudo. O fundo do poço já deve estar próximo, porque toda a gente – falo de “toda a gente” que manda – já percebeu a enorme extensão do que se passa, mesmo ignorando quão enorme tudo acabará eventualmente por ser. Por isso digo: o fundo do poço, financeiramente falando, não poderá estar já muito longe, mais não seja porque já não parece haver muito mais para descer.

Depois, será recolher os cacos e perceber o que se poderá fazer para construir um novo sistema, mais forte e imune a este tipo de crise-dominó. Ainda mais importante, depois será prepararmo-nos para os efeitos sobre a economia real: crescimento zero, novamente o aumento do desemprego, em Portugal novamente o fantasma do défice…

É uma década completamente perdida para Portugal, estes anos 00.

Não se pode hibernar e acordar daqui a uns anos, num país líder em energias renováveis – produção de ventoínhas, centrais de energia a partir de ondas do mar, centrais fotovoltaicas hiper-eficientes de patente portuguesa, crescimento económico a 5% impulsionado pelo cluster dos engenheiros informáticos crescidos a dormir a Magalhães de peluche (mas que não sabem quem foi Fernando Pessoa ou D. João II nem escrever “??” sem erros) ?





Bonemine no Irão, dia 5

12 10 2008

Quinto dia sem a minha alma gémea e finalmente estou razoavelmente adaptado e com tempo para vir à tipografia da aldeia. A minha mente tem andado dividida entre o fuso horário português e o persa, e a mandar mensagens à Bonemine a recomendar que compre o máximo de bens que valham dinheiro em Portugal: barris de petróleo estão algo desvalorizados por estes dias, mas tapetes persas e pedras preciosas são sempre excelentes opções para trazer e preparar o sistema económico de troca directa cada vez mais próximo.

(eu confesso, a verdadeira razão para a demora deste post foi a dificuldade em escrever algo que juntasse o périplo da minha cara-metade pela Pérsia com o mäelstrom que tomou conta do mundo…)





Bonemine no Irão

9 10 2008

As minhas desculpas pela interrupção tão prolongada. Não, não fui engolido pelo mäelstrom da crise, antes não tenho tido disponibilidade, absorvido que tenho estado pela partida da minha alma gémea, a Bonemine, para o Irão – desde ontem em terras persas – tinha que aproveitar o tempo que ela cá estava, já que não vou ter férias com ela, decerto compreenderão, compadres gauleses e gaulesas que visitam esta aldeia (poucos, tão poucos).

A lenta descida rumo à economia de troca directa segue dentro de momentos – algo praticado nesta gaulesa aldeia com os javalis, pelo que aqui não sentimos a diferença.





Embate e empate entre Obama e McCain

27 09 2008

Infelizmente a tardia hora do debate (começou às 2 da manhã – quando escrevi ontem enganei-me nas contas dos fusos horários; é o que dá postar às 8 da manhã…) não me permitiu ilações muito profundas. De qualquer forma pareceu-me que Obama e McCain estiveram igualmente bem, ambos fortes nos pontos em que já os sabíamos fortes. O republicano foi melhor no capítulo da experiência, mas isso não lhe garantirá muitos votos, pois em política externa o ponto principal – Iraque – até lhe é desfavorável.

De qualquer forma, neste momento a principal preocupação dos eleitores é a economia, terreno que lhe é desfavorável e onde Obama foi mais assertivo – McCain esteve mais truculento aqui, tentando acusar várias vezes Obama de ter aprovado projectos despesistas pela “porta do cavalo” (earmarks), retórica onde se nota já não direi desespero mas pelo menos falta de outros argumentos mais plausíveis aos eleitores.

Interessante a análise que li aqui (via Pollster), que tenta explicar as sondagens pós-debate que dão a “vitória” a Obama. Não indo tão longe quanto a autora notoriamente liberal (no sentido americano do termo) direi apenas que, se as sondagens são neste momento favoráveis a Obama, e se a economia é – e será até Novembro – o ponto principal (diria quase único) de campanha – McCain teria de ter sido neste capítulo notoriamente melhor que o seu opositor. Não o foi e perdeu a primeira de três oportunidades de o fazer. Aliás, a via baixa pela qual o atacou não augura nada de bom para o resto da campanha.

Aqui vos deixo parte da análise de que falei acima, para os preguiçosos que não queiram seguir o link. Os destaques são meus.

My other annoyance with the punditry is that they seem to weight all segments of the debate equally. There were eight segments in this debate: bailout, economy, spending, Iraq, Afghanistan, Iran, Russia, terrorism. The pundit consensus seems to be that Obama won the segments on the bailout, the economy, and Iraq, drew the segment on Afghanistan, and lost the other four. So, McCain wins 4-3, right? Except that, voters don’t weight these issues anywhere near evenly. In Peter Hart’s recent poll for NBC, 43 percent of voters listed the economy or the financial crisis as their top priority, 12 percent as Iraq, and 13 percent terrorism or other foreign policy issues. What happens if we give Obama two out of three economic voters (corresponding to the fact that he won two out of the three segments on the economy), and the Iraq voters, but give McCain all the “other foreign policy” voters?

Issue        Priority      Obama     McCain
Economy         43    -->    29        14
Iraq            12    -->    12         0
Foreign Policy  13    -->     0        13
==========================================
Total                        41        27

By this measure, Obama “won” by 14 points, which almost exactly his margin in the CNN poll.

McCain’s essential problem is that his fundamental strength – his experience — is specifically not viewed by voters as carrying over to the economy. And the economy is pretty much all that voters care about these days.